Paranatinga, 19 de Novembro de 2017

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As surpreendentes formas de se levar drogas para os Estados Unidos

| 08/12/2015


As surpreendentes formas de se levar drogas para os Estados UnidosBBC

 

Túneis de 600 metros com iluminação e sistema de ventilação, submarinos camuflados para uma navegação mais discreta.

Estas são apenas algumas das formas mais inovadoras que as organizações criminosas encontraram para inundar os Estados Unidos com drogas.

A situação é tão grave que a Administração Para o Controle de Drogas (DEA, na sigla em inglês) confirmou que, por ano, morrem no país mais pessoas devido a overdose - de drogas ou medicamentos com receita - do que por acidentes nas estradas ou por armas de fogo.

Por isso, a BBC consultou quatro especialistas na luta contra a entrada de drogas nos Estdos Unidos para conhecer as novas formas de tráfico e como as autoridades combatem este contrabando.

O contra-almirante Christopher Tonmey é o diretor do Comando Conjunto Interinstitucional Sul para a Guarda Costeira dos Estados Unidos e cobre mais de 100 milhões de quilômetros quadrados em sua área de vigilância, entrando "no profundo Atlântico desde o norte até o centro e sul dos Estados Unidos, passando até a zona leste do Pacífico".

"A droga que mais circula por esta zona é a cocaína. No ano passado conseguimos detectar em um tubo 191 toneladas desta substância", disse.

Tonmey afirma que os cartéis inovam muito para contrabandear a droga e, graças aos lucros com o tráfico, conseguem investir em inovação tecnológica.

"Neste monento 95% da droga é transportada por vias aquáticas, através de cargueiros, embarcações particulares, iates, veleiros e barcos pequenos. Também têm lanchas rápidas, projetadas para deixar para trás as embarcações da autoridades", afirmou.

"Recentemente observamos o uso mais frequente de embarcações semissubmersíveis feitas de madeira compensada e fibra de vidro, com motores comerciais. Os contrabandistas gastam até US$ 1 milhão para construir uma destas embarcações que, em geral, usam uma vez", acrescentou.

Tonmey afirma que seu departamento está sendo eficaz com os recursos que tem, mas admite que seria melhor ter mais barcos e aeronaves.

"Apenas por não sermos capazes de deter todos os envios de drogas, temos que pensar que estamos perdendo esta batalha. (...) Temos que derrubar estes cartéis. Até que não o façamos, teremos muito trabalho pela frente", acrescentou.

Tons de azul

O tenente comandante Devon Brennan é o supervisor de políticas contra narcóticos para a Guarda Costeira dos Estados Unidos. Em setembro ele monitorou a operação que conseguiu fazer a maior apreensão de drogas em um submersível.

Em um trabalho coordenado com aeronaves, a Guarda Costeira conseguiu detectar uma embarcação perto da costa da Guatemala.

"Assim que você escuta estas palavras, sua pressão sanguínea começa a se elevar", disse.

Eles usaram um helicóptero e pequenos botes que se colocaram atrás da embarcação para surpreendê-la.

"Apreendemos 6,8 mil quilos de cocaína nesta embarcação. Também havia um adicional de 1,2 mil quilos que deixamos dentro da embarcação pois, quando retira toda a carga, estes submersíveis ficam instáveis. Quando estávamos rebocando-o, entrou água e ele afundou."

"Se você analisa a embarcação, ela está apenas com um pé acima da superfície da água e está pintada com várias tonalidades de azul para que se misture com a cor do mar, o que faz com que seja muito difícil detectá-la até a uns 30 metros de distância", afirmou.

Brennan afirmou que a embarcação foi projetada para levar drogas pois a maioria do espaço é para carga e a tripulação é para quatro pessoas, que viajam amontoadas na cabine, uma área do tamanho de uma cama.

O risco de esta embarcação afundar é alto e, de acordo com ele, pilotá-la é uma atividade muito perigosa.

"Não há falta de criatividade nas organizações criminosas que traficam drogas. Obviamente estão tentando desenvolver uma nave que fique totalmente submersa, o que será um desafio totalmente novo para nós", disse.

Rede de túneis

Eric Feldman é um agente especial do departamento de Investigações de Segurança Nacional e líder da Força Especial de combate aos túneis.

Ele afirma que os cartéis sempre buscam formas novas de entrar com a droga nos Esados Unidos e um túnel sofisticado permite o transporte de grandes quantidades.

"No mês passado foi detectado em San Diego um túnel onde foram apreendidas mais de 10 toneladas de maconha", disse.

"Este túnel em particular tinha 600 metros e se encontrava a 12 metros da superfície. Estava iluminado, com mecanismos de ventilação e um sistema de transporte de mercadoria que permitia carregar o produto no México e levá-lo através de trilhos até o ponto de saída nos Estados Unidos, onde havia um sistema de roldanas para levar a droga até um armazém."

E as formas que Feldman descobriu que eram usadas para disfarçar entradas de túneis também são criativas: mesas de sinuca, painel elétrico, banheiras, elevadores.

"Descobrimos uma saída de túneis nos Estados Unidos onde, depois da saída de cada carregamento, vinha uma equipe que fechava o acesso com cimento, fazia a pintura e colocava um tapete."

A equipe de Feldman obteve um sucesso relativo encontrando estes túneis. Mas ele lembra que, desde 2006, els só encontraram 11 destes.

Sofisticação

Para Rodrigo Canales, professor associado da Escola de Administração da Universidade de Yale, é preciso mudar a forma como pensamos nos traficantes.

"Nossas referências tradicionais é que os narcotraficantes são loucos, criminosos cruéis. Mas acredito que eles estão praticando um esporte muito mais sofisticado", afirmou.

Canales afirma que os traficantes querem controlar o território por onde transportam a droga, para garantir que ela seja entregue.

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"A forma de neutralizar seus competidores é por meio da violência. Para controlar as autoridades se utiliza o que no México chamam de 'lei do dinheiro e do chumbo': se você é uma autoridade local você quer ganhar muito dinheiro ou quer ser morto?"

Além disso, eles também querem a confiança dos moradores do território que operam e do que querem controlar.

"Ajudam a controlar outro tipo de crime. Investem na comunidade e desenvolvem estratégias elaboradas de comunicação para explicar às pessoas a razão de fazerem o que fazem."

"As organizações que são eficientes têm uma estrutura bem definida, uma cultura organizacional e valores. Têm canais no YouTube. Usam as redes sociais para recrutar e para se comunicar", afirmou o professor.

Ele afirma que a Federação de Sinaloa, geralmente citada como a organização criminosa mexicana mais poderosa, tem muita disciplina quanto ao envolvimento em outras atividade que não seja o tráfico, o que permite boas relações com moradores locais.

"Querem se posicionar como uma organização multinacional dedicada à droga."

Os membros dos Los Zetas estão em outro extremo e mantém uma estrutura militar.

"Desenvolveram sua própria marca para serem percebidos como os mais cruéis e violentos. Se criou no México um ambiente onde apenas a organização mais sanguinária, violenta e sofisticada sobrevive."

Canales afirma que o problema tem que ser abordado com um "enfoque estrutural e integral" senão esta organizações sempre estarão um passo à frente das autoridades.

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