Paranatinga, 11 de Abril de 2021

Mato Grosso

VOLTA AS AULAS - Escolas com protocolos são mais seguras que as nossas casas

Publicado 14/03/2021 15:10:22


Mãe de quatros filhos, a servidora pública Francielle Brustolin se viu em desespero com os fechamento das escolas na pandemia. Nesse período, fez de tudo para tentar manter educação dos filhos em casa, inclusive um curso de alfabetização. Mas não deu certo: “Não tenho dom”, afirmou.

 

Passados oito meses de pandemia com as escolas fechadas, ela decidiu agir e criou o movimento “Escolas Abertas Cuiabá” direcionado às unidades particulares.

 

Em entrevista ao MidiaNews,  a servidora afirmou que as escolas com protocolos de biossegurança são mais seguras até que as nossas próprias casas.

 

“Nós observamos que as crianças contaminam menos, têm menos sintomas quando pegam, mas ao mesmo tempo, estão sendo punidas enquanto os adultos vivem uma vida normal”, disse.

 

"A Unicef, OMS, Sociedade Americana de Pediatria, Sociedade Brasileira de Pediatra, entre outros tantos órgãos científicos, se manifestassem de forma unânime de que escola é ambiente seguro", afirmou.

 

Na entrevista, a servidora ainda afirmou que o fechamento das escolas por esse longo período trará consequências “tenebrosas” para as crianças e adolescentes. Ela ainda criticou o ensino à distância dizendo que é o “pavor” de qualquer família. 

 

Leia os principais trechos da entrevista: 

 

MidiaNews - Como surgiu o movimento pela abertura das escolas?

 

Francielle Brustolin – Começou comigo e uma amiga minha. Estávamos conversando a respeito do assunto e lemos uma notícia de que havia esse movimento no Estado de São Paulo. A partir daí, criamos contas nas mídias sociais, grupo de Whatsapp e lançamos um abaixo-assinado pedindo a reabertura das escolas. Tivemos uma grande adesão.

 

Atualmente, somos mais de três mil membros, entre pais, mães, educadores e instituições particulares de ensino. Não temos fins políticos, não temos filiação partidária.

 

Nós observamos que as crianças contaminam menos, têm menos sintomas quando pegam, mas ao mesmo tempo estão sendo punidas enquanto os adultos vivem a vida normal. Morreu mais adolescente de suicídio do que de Covid em Mato Grosso.

 

MidiaNews - As crianças têm reagido com emoções negativas ao período de isolamento social? Quais são os principais sintomas observados pelos pais?

 

Francielle Brustolin – Sim. Crianças que estão engordando 10, 15 quilos. Crianças se automutilando, arrancando cabelo até ficar careca, roendo unha até sair sangue, com crise de pânico, crise de ansiedade. Muitas precisaram de ajuda psicológica, psiquiátrica.

 

Muito caso de violência de várias ordens. Porque, na verdade, a escola é um lugar que mais se denuncia maus-tratos. Vimos muitos relatos absurdos no nosso grupo de Whatsapp. De cada dez mães, nove têm um relato triste desse período de pandemia.

 

MidiaNews - Nas últimas semanas houve um aumento gritante nos casos de Covid em Mato Grosso. Diante deste novo quadro, vocês ainda defendem a reabertura? 

 

Francielle Brustolin - Pesquisas científicas são unânimes em dizer que escola é ambiente seguro, inclusive as escolas com protocolo de biossegurança são mais seguras que a até a nossa própria casa, onde a gente não usa máscara, onde recebemos visitas.

 

E assim, se não abre, a gente não tem como verificar os pontos fracos e ajustar esses pontos fracos. Quanto mais se demora em abrir, mais difícil, mais longe fica do modelo ideal. Tem que reabrir e ir reajustando.

 

MidiaNews - Afinal, qual modelo de educação vocês defendem na pandemia?

 

Francielle Brustolin - Híbrido, pelo direito da familia escolher. As famílias precisam ter direito de escolher. Nossa luta sempre foi pelo híbrido com as medidas necessárias de biossegurança dentro das escolas.

 

MidiaNews - Não teme que as novas variantes sejam mais letais para crianças e adolescentes?

 

Francielle Brustolin - É importante a gente dizer que nenhuma pesquisa fala que as novas cepas atingem mais as crianças e adolescentes. As novas cepas podem dar mais sintomas, mas não graves. Claro, se tiver um aumento significativo de crianças com problemas ou precisando de internação e tudo mais, nós jamais vamos defender a escola aberta. Mas não é o caso. Não é o que vem sendo apresentado no Mundo e não é o que vem sendo apresentando também no Brasil.

 

Divulgação

 

"Não existe nenhum caso de supercontágio dentro de cidades, países, ligado a escolas"

Querem fomentar a teoria do caos nas costas das crianças. Ao invés de responsabilizar quem realmente fez a situação chegar a esse ponto, querem responsabilizar as crianças. A culpa não é das crianças, não é das escolas.

 

A escola é um lugar totalmente seguro. Não existe nenhum caso de supercontágio dentro de cidades, países, ligado a escolas. Mesmo havendo um surto ou outro por conta da falta de utilização de protocolo de segurança, ele não afeta em números o aumento de Covid. E essa constatação fez com que a Unicef, OMS, Sociedade Americana de Pediatria, Sociedade Brasileira de Pediatra, entre outros tantos órgãos científicos, se manifestassem de forma unânime de que escola é ambiente seguro.

 

E nem preciso ir muito longe. Pergunta para qualquer pessoa de Cuiabá quantas crianças que ela conhece que pegaram Covid? Dessas crianças, quantas ela viu sendo hospitalizada ou indo para a UTI? Por essa média a gente já tira que as crianças são menos contaminadas e menos transmissoras.

 

MidiaNews - Falando de espaço físico, o que seria o ideal para uma escola?

 

Francielle Brustolin - Não é a velha escola que a gente quer. Queremos uma nova escola. Uma escola que tenha todo protocolo de segurança e que os pais se coloquem numa posição ativa, de adultos responsáveis que são. Ou seja, não enviar uma criança com coriza, com febre, que tenha qualquer tipo de sintoma, não só de Covid.

 

A gente não quer nunca a reabertura das escolas a qualquer custo, nunca foi essa a nossa bandeira. A nossa bandeira sempre foi a reabertura de escola de uma forma consciente, com medidas de biossegurança e com pais responsáveis.

 

Inclusive, a Sociedade Americana de Pediatria e outras entidades falam que a escola é um aliado do Governo no combate ao coronavírus, na medida em que as crianças recebem a correta instrução de como usar a máscara, de como lavar as mãos corretamente, de como fazer o distanciamento. Lá os professores têm como dar essas instruções para a criança e as crianças trazem essas práticas para dentro de casa.

 

MidiaNews - Acha que este ano “perdido” pelas crianças e adolescentes podem trazer consequências ruins em um futuro próximo?

 

 

O que é pior: ela ir para escola tendo o risco de ser contaminada ou ficar em casa tendo outras desordens muito piores e sequer imagináveis?

Francielle Brustolin – As consequências são absurdamente tenebrosas e a gente não tem a menor noção e o alcance disso, tanto dentro de casa como nas escolas. Tanto problemas físicos quanto mentais. Imagine: um pré-adolescente, uma criança, precisa conviver com aquele núcleo de colegas da escola para a própria formação da identidade. Essa identidade está sendo quebrada na criança. Ela está tendo que se desdobrar e tentar entender que mundo ela vive, quem ela é, porque ela não está tendo essa troca de informação e de vivência que tinha antes. Para o adolescente, é ainda pior. Está mais do que comprovado que essa vida escolar faz a diferença no emocional dela para sempre.

 

O que é pior: ela ir para escola tendo o risco de ser contaminada ou ficar em casa tendo outras desordens muito piores e sequer imagináveis? Quando a gente olha para escola e vê que ela é um ambiente seguro, com certeza ir para a escola, mesmo correndo risco sim de eventual contaminação, provoca dano menor do que ela ficar privada desse convívio.

 

A escola tem que ser vista como um avião. Quando vai entrar num avião, você sabe que pode cair e morrer, mas você pensa no benefício de que esse transporte vai te proporcionar. E aí você se arrisca e vai confiando de que ali existem todos os aparatos de segurança funcionando. A escola é a mesma situação. Não é que não existe o risco de você ser contaminado, existe. E quanto mais vírus circulando entre os adultos, mais risco de haver contaminação da criança. Mas, com todos os aparatos de biossegurança, você consegue mitigar a contaminação. E mesmo que uma criança contaminada entre na escola, não quer dizer que ela vai causar um surto lá dentro.

 

MidiaNews - Qual é a avaliação da senhora a respeito do ensino à distância?

 

Francielle Brustolin – O ensino a distância dispensa comentários. É o pavor de qualquer família. Quando você fala para uma criança que ela tem aula online, ela até adoece. É desesperador. Com a minha filha, que está em fase de alfabetização, é impossível. Ano passado eu fiz curso de alfabetização, tentei, mas não deu. Eu não tenho o dom. Admiro o professor. A figura, a autoridade do professor é uma coisa que a mãe não tem condição. A gente não é pedagoga. Não tem jeito.

 

 

A real necessidade é que os professores precisam se portar como adultos responsáveis. E, professores que são, entenderem o papel deles na formação do ser humano

A mãe tem que ficar lá acompanhando porque senão a criança não existe, se a criança existe já começa a se desesperar porque está há muito tempo na frente do computador. Ela começa a não prestar mais atenção, já começa rabiscar a mesa, olhar para outro lugar. Não dá. É melhor nem ter aula então. As crianças não conseguem se adaptar. Os adolescentes até que conseguem se concentrar um pouco mais.

 

MidiaNews -  Como vê a posição dos professores que resistem a retornar à sala de aula?

 

Francielle Brustolin – Tudo mundo voltou a trabalhar, inclusive aquelas pessoas que têm contato direto com os adultos e com pessoas que realmente transmitem muito mais que crianças. Eu entendo o professor, o receio que eles têm, mas eles são uma classe privilegiada por trabalhar com quem menos contamina e transmite.

 

Eu entendo que eles defendam que sejam vacinados, mas eu também entendo que o trabalhador que lida com adulto tem até mais necessidade do que eles.

 

A real necessidade é que os professores precisam se portar como adultos responsáveis. E, professores que são,  entenderem o papel deles na formação do ser humano.

 

Falo isso principalmente em relação ao setor público, que não é a nossa bandeira, porque os professores particulares querem trabalhar, considerando que mais de mil foram demitidos. Mesmo os que estão em grupo de risco querem voltar porque precisam trabalhar.

 

MidiaNews -  Como acredita que o retorno às aulas deve ser tratado pelo poder público?

 

Francielle Brustolin – O poder público precisa, primeiro, fazer investimentos em tecnologia porque as crianças precisam de ajuda para ter acesso à Educação mesmo que seja online. Tem que equipar essas crianças com plataformas de aula, com computadores.

 

Segundo, precisa  ter um trabalho de programação de retorno às aulas presenciais. Como que vai ser esse retorno. Como vai ser a fiscalização. Quem vai fazer. Como vai aferir se há surto ou não há. Quem vai dizer isso. Que setor vai ficar realmente responsável por isso. É muita coisa envolvida no sistema público.

 

MidiaNews - Nesta semana vocês contestaram a informação sobre o fato de que 10% das crianças internadas com Covid vieram a óbito. Há um erro neste dado?

 

Francielle Brustolin – Estamos convivendo com equívocos no boletim covid do Estado. Participam do nosso grupo intensivistas pediátricas da UTI Covid de Cuiabá e elas sabem quantas crianças estão internadas ou não. Além delas, a gente confirma com o diretor do antigo Pronto-Socorro.

 

Antigamente, nós tínhamos 25 leitos de UTI pediátrica e, por ociosidade, foi reduzido para 15, porque não há criança que chegam a ir para UTI Covid, são poucas.  A média de utilização dessas UTIs, segundo dados das pediatras, é de duas ou três por dia. Geralmente por crianças que já vêm transferidas, por exemplo, do Hospital do Câncer ou de outras unidades que estão com suspeitas. Elas fazem o teste PCR e dá negativo e são devolvidas para outras UTIs. Poucas são as contaminadas e as que são contaminadas são crianças já têm comorbidades anteriores, que já circulam nos hospitais.

 

Na semana passada,  a gente teve 12 UTIs bloqueadas porque estavam sem cirurgião pediatra e três estavam ocupadas dentro dessa situação, crianças que vieram transferidas de outros hospitais e estavam aguardando PCR. Saiu na mídia que 100% da UTI pediátrica estava ocupada. Como se tivesse 15 crianças internadas em estado grave com Covid na UTI, o que não é verdade.  Gerou um caos.

 

Nesta semana, todos os boletins saíram equivocados. Colocaram que havia nove crianças na UTI, mas as próprias pediatras afirmaram que não, que haviam apenas duas ou três esperando o exame PCR.

 

Quem está fazendo isso? Quem está querendo alterar os dados para trazer esse medo para os pais e mães cuiabanas? É essa resposta que a gente quer. Eu tenho certeza que não chegou ao conhecimento do governador Mauro Mendes, mas o movimento está na luta para que isso chegue até ele e isso possa ser resolvido para que os dados sejam adequados.

 

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