Paranatinga, 17 de Junho de 2019

Mato Grosso

MANDATO CASSADO

Eu fui perseguida desde o dia do registro da minha candidatura

Publicado 05/05/2019 15:48:49


Cassada por unanimidade no Tribunal Regional Eleitoral, a senadora Selma Arruda (PSL) afirma que vem sendo perseguida desde o momento em que anunciou sua entrada na política.

 

Com mais de duas décadas na Magistratura, a ex-juíza avaliou o voto do relator Pedro Sakamoto, que levou à sua cassação, como “caolho”. E que os outros juízes da Corte eleitoral do Estado seguiram o entendimento sem analisar profundamente a matéria.

 

“O que aconteceu ali foi que nenhum deles foi olhar o processo para ver se aquilo que estava no voto era verdade ou não. Algum deles poderia ter dito: ‘Eu quero vista’. Não. Partiu de premissa falsa, construiu todo um pensamento lógico em cima daquela premissa falsa. As pessoas ouviram e saíram concordando sem a mínima responsabilidade com aquilo que estavam fazendo”, afirmou a senadora.

 

A congressista aposta em uma reversão do resultado no Tribunal Superior Eleitoral. "Tenho certeza que serei absolvida. Isso se o processo não for anulado e não tiver que voltar para cá. Porque tem muitas nulidades".

 

Enfim, foi uma série de nãos que eu fui recebendo desde o dia em que registrei minha candidatura

 

Há três meses no Senado, Selma diz que recebeu com tristeza a notícia da derrota, no último dia 10 de abril, e até pensou em voltar para Mato Grosso. No entanto, diz ter preferido “ouvir a voz do povo”.

 

Nesta entrevista ao MidiaNews, a senadora ainda falou sobre a sua atuação no Senado, a CPI da Lava Toga, a relação com outros congressistas, o Governo Jair Bolsonaro e a utilização das redes sociais na política. 

 

Confira a entrevista na íntegra:

 

MidiaNews – Em seu primeiro pronunciamento na tribuna a respeito da cassação de seu mandato, a senhora disse que no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) terá um julgamento "menos perseguidor". Porquê?

 

Selma Arruda – Eu fui perseguida desde o dia do registro da minha candidatura. O juiz que tomou conta de todo meu processo eleitoral foi o Ulisses Rabaneda. Ele estava no cargo como juiz do TRE pela OAB. Ele é advogado. Foi advogado do ex-governador Silval Barbosa, do Francisco Faiad [ex-secretário do Estado de Administração] e eu acabei mandando prender os dois [na Operação Sodoma]. E isso deve ter causado nele alguma espécie de animosidade em relação a mim. Eu nem tentei aduzir suspeição. Sabia que pela praxe os tribunais não costumam acolher exceções de suspeição dos seus próprios membros. E deixei assim.

 

Primeiro ele tentou indeferir o registro da minha candidatura. Na verdade, ele indeferiu. Nós precisamos recorrer e ganhamos o recurso. Depois ele indeferiu que eu usasse o nome “juíza Selma”, porque ele dizia que eu não era mais juíza. Mas aí há [políticos que usam] o “major”, o “delegado” etc... Mas só eu não poderia usar o “juíza”. Recorri e ganhei.

 

Depois ele tirou meu tempo de TV, me deixou com sete segundos de tempo de propaganda na TV. E precisei entrar com recurso, pedindo os 30% que tinha direito como mulher, para ter 29 segundos, enquanto o outro candidato da coligação ficou com 90.

 

Enfim, foi uma série de nãos que eu fui recebendo desde o dia em que registrei minha candidatura. E por fim ele conseguiu a proeza de levar para dentro da minha prestação de contas de campanha - pegou os gastou de março e abril - e disse que não prestei contas daquilo e incluiu aquilo na prestação para reprovar as minhas contas. Essa linha de raciocínio serviu de esqueleto para o voto do [desembargador relator] Pedro Sakamoto. 

 

 

 

Midianews – Isso reforça a tese de perseguição da senhora?

 

Selma Arruda  Eu digo que fui perseguida nessa AIJE [Ação de Investigação Judicial Eleitoral] porque não é muito comum uma pessoa ser processada em cinco meses como eu fui, atropelando o direito de ouvir testemunhas e uma série de coisas.

 

Para se ter uma ideia, no voto da condenação, o desembargador Pedro Sakamoto considera como caixa 2 um cheque que, na verdade, foi fraudado da minha conta. O que aconteceu? Quando a imprensa começou a divulgar as imagens daqueles cheques, algum estelionatário teve a ideia de usá-los e jogou na praça. E começaram a cair cheques na minha conta. Fiquei chateada na ocasião e fiz uma petição para o Pedro Sakamoto pedindo para ele deixar de vazar os dados – na época o processo estava em sigilo. E era por causa desses vazamentos que eu estava sendo prejudicada. Às vezes a Caixa Econômica me ligava, porque às vezes eram cheques bem falsificados. Mas às vezes eram falsificações grosseiras. 

 

O cheque que ele usou [no voto] está escrito “Agência Miguel Sultil” e não Sutil. Tem um “L” no meio. Para você ver a grosseria da falsificação. E ele se utilizou de um desses cheques para dizer que é um cheque usado na campanha. Então é um voto absolutamente caolho.

 

Outro cheque que veio da minha conta de pessoa física é um que foi dado para o [jornalista e marqueteiro] Kleber Lima e que foi pré-datado. Então, é um cheque de antes da campanha, que entrou na conta do Kleber Lima depois da campanha.

 

Esse cheque pré-datado foi dado para uma pesquisa. E no processo, que tem o depoimento do Kleber Lima, ele disse: “Eu fiz uma pesquisa, e ela me pagou com alguns cheques. Inclusive, essa pesquisa que eu fiz, eu também vendi para o [Carlos] Fávaro [candidato derrotado ao Senado], só que ele não me pagou em cheque e sim em dinheiro vivo”.

 

Quer dizer: e com ele [Fávaro] não aconteceu nada. Ninguém foi lá investigar se na conta de campanha dele tem esse pagamento, se não tem. Entendeu? No meu conceito não há outra classificação que não seja perseguição. 

 

MidiaNews – Mas o resultado contra a senhora foi 7 a 0. Como sustentar a tese de perseguição com um placar destes? 

 

Selma Arruda – O que até me fez na época ficar mais chateada e me fez ficar mais emocionada na minha fala foi exatamente isso: quando você está no Judiciário, com a função de julgar os outros, tem que se ter muito cuidado e responsabilidade. E o que aconteceu ali foi que nenhum deles foi olhar o processo para ver se aquilo que estava no voto era verdade ou não. Algum deles poderia ter dito: "Eu quero vista". Não! Partiu de premissa falsa, construiu todo um pensamento lógico em cima daquela premissa falsa. As pessoas ouviram e saíram concordando, sem a mínima responsabilidade, com aquilo que estavam fazendo. Essa questão da unanimidade é em decorrência dessa omissão. Foi isso que me deixou mais chateada.   

 

 

 

MidiaNews – E quanto ao uso desses R$ 1,2 milhão da pré-campanha que foram incluídos no processo?

 

Selma Arruda – Eu usei esse dinheiro, isso nunca foi negado. Paguei com cheques da minha conta. A origem do dinheiro é da conta do meu primeiro suplente, ou seja, é autofinanciamento de campanha. Não há nada de irregular.

 

Veja bem: quando eu resolvi tentar ser senadora, eu não tinha passado político nenhum. Todos os outros candidatos já haviam sido. Jaime Campos, Carlos Fávaro, Nilson Leitão... Todos à exceção de Waldir Caldas, mas os principais tinham bagagem política, menos eu. Eu precisava então conectar a Selma Arruda com a pessoa que prestou um bom trabalho no Judiciário. Porque quem trabalha com jornalismo sabe quem sou. Agora o povão não iria enxergar. Diferente da figura do Sérgio Moro, eu não era tão conhecida. 

 

E eu precisava saber se tinha viabilidade política. E realmente se eu poderia me eleger. Em uma segunda fase, comecei a preparar a imagem. Havia uma preocupação muito grande se eu deveria usar uma imagem mais sisuda e séria, ou se eu deveria ser mais simpática. Porque eu sou uma pessoa risonha por natureza. Aquela Selma carrancuda ficava lá no Fórum. Então, foram estudos de imagens, nada eleitoral, óbvio que é visando a preparação. 

 

Outra coisa importante: a lei não diz quando começa a pré-campanha. Se você quiser ser candidato a vereador, você já pode começar a fazer isso a partir de agora. Não existe um marco: aqui é campanha e aqui é pré. E antes da campanha você não pode praticar atos que sejam típicos de campanha: pedir voto.

 

E em nenhum momento eles falam que pedi voto. Ao contrário, eu mexia timidamente com Facebook e foram feitos alguns ensaios, mas nada foi usado. É a mesma coisa que eu preparar um veneno para te matar, mas não te dou. Que mal isso causou? Mas eles foram lá buscar isso – e não o fizeram com nenhum outro candidato. Ninguém sabe o que Jaime e Fávaro fizeram na pré-campanha. Mas da Selma, de março em diante, eles me seguiram passo a passo.

 

Realmente eu gastei isso. Só que o próprio TSE tem um precedente, do ministro Luiz Fux, que diz que se os gastos da pré-campanha e da campanha não ultrapassarem o teto de R$ 3 milhões, não tem problema. E era nesse precedente que eu estava me calçando. Chegou lá, no dia do julgamento, ele [Sakamoto] desconsiderou esse precedente, e alguns membros chegaram a citar esse precedente, mas quando iam ler o voto, eles davam uma guinada para outro lado. Isso aconteceu com a juíza Vanessa [Gasques] e outros, que chegaram a beirar esse precedente. Eles liam, quando o próximo parágrafo seria o parágrafo justo, eles desviavam e diziam: “Não, mas passou do candidato médio”.

 

Eu passei do candidato médio, mas quais eram os outros candidatos ao Senado? Um dos maiores pecuaristas desse País, Jaime Campos. Carlos Fávaro, ligado à Aprosoja e que tem o agro financiando; Sachetti, forte, também fazendeiro. Então, que candidato médio é esse que eu passei?

 

 

 

MidiaNews – Um dos fatos levantados é que sua campanha foi mais cara do que a do presidente Jair Bolsonaro.

 

Selma Arruda – Eu tenho teto, eu posso gastar até o teto. O presidente já era um “mito” há muito mais tempo, conhecidíssimo e expert em redes sociais. Eu não. 

 

MidiaNews – E esses R$ 1,5 milhão que o seu suplente Gilberto Possamai lhe repassou?

 

Selma Arruda – Ele é um agricultor, tem capital financeiro. E eu tenho capital político. E ele quer ser prefeito de Sorriso e precisava erguer o nome e a projeção política dele para poder se candidatar a prefeito. 

 

Então ele disse: "Como pode fazer autofinanciamento de campanha, você entra com seu capital político e eu entro com o capital financeiro. Financio sua campanha ou a maior parte dela, e depois você me dá uma janela no Senado para que eu possa trabalhar ou levar recursos e emendas para Sorriso, porque tenho essa pretensão". Cheguei a me aconselhar, e fiquei sabendo que isso acontece em quase que na totalidade das vezes. Não há nada de ilegal, nem imoral.

 

Eu topei fazer isso com ele porque, como eu tinha acabado de sair da 7ª Vara, morria de medo que viesse um traficante doar para minha campanha. Ou acontecer algo ilícito em que alguém quisesse me enrolar botando dinheiro na minha conta e me amarrar amanhã ou depois. Então eu falei: "Bom, esse moço é um cara certo, o dinheiro dele vem do trabalho dele, então está combinado".

 

Quando me mandou esse R$ 1,5 milhão, ele não tinha nenhuma garantia de que eu iria manter a minha palavra

 

Quando me mandou esse R$ 1,5 milhão, ele não tinha nenhuma garantia de que eu iria manter a minha palavra e iria para o Senado. Tinha um quadro de 11 candidatos e eu aparecia em 6º lugar e até em penúltimo [nas pesquisas]. E eu recebia muito convite para ir a deputada federal. E se eu fosse a deputada federal, ele não teria nenhum tipo de retorno. 

 

Então foi feito esse contrato de empréstimo para garantir que essa palavra dada iria ser cumprida. Não é um empréstimo que eu tenha que pagá-lo, mas um empréstimo que deu a garantia a ele de que eu iria cumprir. 

 

MidiaNews – A senhora parece bastante convicta das suas razões neste processo. Qual a expectativa quanto à apreciação de seu caso no Tribunal Superior Eleitoral?

 

Selma Arruda – No TSE eu tenho certeza que serei absolvida. Isso se o processo não for anulado e não tiver que voltar para cá. Porque tem muitas nulidades. Para se ter uma noção, a pressa era grande de sentenciar esse processo antes de acabar o mandato [dos juízes do TRE]. Eu pedi para ouvir a pessoa que foi o meu coordenador de campanha, porque era ele que coordenava as finanças, sabia quem fazia o que, porque foi ele que fez os pagamentos, ajustes... A questão do contrato com o [publicitário] Júnior Brasa, tudo foi ele. 

 

Eu pedi para ouvi-lo, foi deferido. Expediu precatória porque ele mora em Brasília. E quando chegou na época de ouvir, a pressa era tanta que não ouviu mais a precatória, não vai mais ouvir. E sentenciou sem ouvir. São nulidades de cerceamento de defesa que tenho certeza que o TSE não vai deixar passar barato. E várias outras.

 

 

 

MidiaNews – Quando está em sua casa, sozinha, a senhora em algum momento cogita ficar sem mandato?

 

Selma Arruda – Eu entrei na política para trabalhar, para prestar um serviço. [No dia da decisão do TRE] Eu liguei pro meu marido e disse: "Vou arrumar minhas malas e vamos embora amanhã". Eu sou obrigada a viver dentro de um avião praticamente. Meus filhos e neta ficaram aqui, minha casa em Chapada, que eu adoro, está aqui.

 

O que você ganha lá não é um salário ruim. É o equivalente a um salário de um juiz, mas vai tudo com esse vai e volta. Você tem que andar bem vestida e tudo isso é muito gasto. Lá em Brasília eu moro em um apartamento funcional, não recebo auxilio-moradia. E a mobília, utensílios, fui eu que comprei. Até agora, nem o salário de senadora eu vi. Além disso, eu saio 8 horas da manhã de casa e em 90% das vezes eu volto às 22h ou 23h. Isso quando não tenho que sair do Senado e ir para uma reunião ou evento.

 

E por quê? Porque, quando entrei, eu resolvi participar de várias comissões. E isso acaba me consumindo. Para mim é trabalho. Não tenho medo de perder isso. Não fui lá para ficar rica, exercer poder e nem para fazer “maracutaia”. Se eu tivesse ido lá para isso, provavelmente eu estaria sem dormir.

 

O senador Lasier Martins (PSD-RS) é autor de um projeto de lei que modifica os percentuais de cumprimento de pena, e eu fiz questão de ser relatora. Fiz todo o trabalho, foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça na semana passada. E aquilo me dá um prazer danado. De fazer uma coisa que eu me propus a fazer lá. É mudar algumas coisas processuais, aumentar penas, dar mais rigor, mais efetividade para legislação criminal... Foi para isso que eu fui. Não por outro motivo. 

 

Se eu perder, pessoalmente, para mim não faz a mínima diferença. Eu, inclusive, cheguei a pensar em desistir e nem recorrer. Porém, tenho recebido tanta manifestação na rua, no aeroporto, no Senado, em todos os lugares... As pessoas dizem: "Você não desiste, porque eu votei em você e faço questão que o meu voto seja respeitado". Então, quando as pessoas lhe falam isso, você sente o peso da responsabilidade que assumiu quando teve tantos votos.

 

E também pela necessidade de mostrar para as pessoas que essa é uma decisão equivocada.

 

MidiaNews – Nesses momentos de reflexão, a senhora admite que possa ter errado ao manejar seus recursos de campanha? Acredita que foi ingênua em algum momento, por inexperiência?

 

Selma Arruda – Acho que foi justamente isso. Inexperiência e falta de assessoria melhor. Mas uma coisa eu digo. Se eu tivesse uma assessoria que dissesse: “Você não irá pagar da sua conta, irá pagar por fora”, aí eu já não tinha feito. Eu fiz da forma que deveria, não faria nada escondido.

 

MidiaNews –  Acredita que o PSL Nacional pode fazer algum pressão no TSE para auxiliá-la, já que a senhora é do partido do presidente.

 

Selma Arruda – Se eu precisar do presidente fazer uma ligação para me ajudar, acho que não vai rolar (risos). E eu não gostaria que fizessem, ficaria ruborizada. Claro que uma coisa é mostrar que eu sou correta, fui uma juíza que prestei um bom trabalho. 

  

 

 

MidiaNews – Antes mesmo da decisão no TRE, já havia políticos vislumbrando a sua vaga no Senado. Como a senhora viu isso?

 

Selma Arruda  Por um lado eu até acho graça da infantilidade do coitado do Fávaro. Porque ele fez isso na intenção de que o voto do relator não fosse vencido e que ele pudesse virar senador biônico. Ou, em segundo plano, se eleger senador. 

 

As pessoas vêm para mim, de turma, e dizem: “Votamos em qualquer pessoa menos nesse sujeito, porque ele não poderia ter feito isso”. Independente da estratégia política, ele não irá se eleger para o cargo de senador. 

 

Mas em relação aos outros, é no mínimo falta de respeito. Espera o defunto ser colocado no caixão. As pessoas têm que esperar a Justiça ser feita. Já pedi aos meus advogados para que, obviamente, não atropelem nada, mas que não segurem o processo de forma alguma.

 

Quando você responde a um processo, já é uma coisa constrangedora. Agora, quando você responde a um processo em que já foi condenada em primeira instância, é agoniante. Você precisa ver aquele resultado seja qual for. 

 

MidiaNews – A senhora é favorável à instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito chamada Lava Toga. Os tribunais superiores precisam ser investigados? 

 

Selma Arruda – O Senado é único órgão que tem a competência para investigar os tribunais superiores. Eu sempre tive comigo que nós estamos tentando fazer uma faxina no Brasil. E conseguimos chegar a algumas esferas do Executivo. Conseguimos chegar também a algumas esferas do Legislativo. Mas misteriosamente o Judiciário está intocável, e isso precisa ser revisto. Eu não acho que a CPI deva ser só dos tribunais superiores, deve ser geral. Só que claro que a proposição foi de fazer uma CPI para os tribunais superiores, até pela competência do Senado. E eu assinei por entender que à medida em que você quer passar esse País a limpo, não pode haver caixa-preta.

 

MidiaNews – Qual a crítica a senhora faz ao Supremo Tribunal Federal? Alguns dizem que é uma corte garantista em excesso, outros que existe uma caixa-preta...

 

Selma Arruda – Essa investigação seria útil para a tua pergunta. Se eu fosse o STF, eu preferia ser investigado para mostrar que isso não é verdade, porque é o que as pessoas falam, na maioria das vezes.

 

MidiaNews – No STF está o ministro mato-grossense Gilmar Mendes, sobre quem há muitas críticas. Qual avaliação a senhora faz da atuação dele?

 

Selma Arruda – Eu prefiro não me manifestar sobre essas questões, porque isso deve ser visto pela CPI. Eu poderia exprimir minha opinião sobre cada um dos ministros, mas se eu fizer isso agora, na CPI pode haver um conflito.

 

MidiaNews – A senhora está há três meses em Brasília. O Senado era o que esperava? O que está achando desse início de mandato?

 

Selma Arruda – Eu tive uma grata surpresa tanto com os senadores, quanto com alguns deputados, no sentido de ver que muitas dessas pessoas também não tinham experiência política nenhuma. E muitas dessas pessoas entraram para a política pelo mesmo motivo que eu entrei: chega de ficar quieta, vendo as coisas erradas, e não levantar. Eu ouvi isso dos colegas: "Eu estou aqui nem sei porque, mas eu cansei de reclamar e não fazer nada". Encontrei muita gente boa em todos os partidos. 

 

E lá no Senado, houve uma renovação muito grande nesse sentido. Alguns ali que estão sendo contados como renovação, na verdade são pessoas que já tinham uma vida política anterior. Mas existe ali uma quantidade de pessoas, até significativa, que não tem passado político e que portanto não aceita que se faça política desse jeito tradicional, de "toma-lá-dá-cá", de troca de cargos, de ceder por emendas...

 

Tem muita gente que também pensa dessa forma. E para mim foi muito bom, porque você não fica isolado. Você acaba encontrando pessoas que pensam que política tem que ser feita dessa forma. Porque se você vai para o meio daqueles políticos tradicionais, eles te olham como se você fosse um ET.

 

E o Senado é uma Casa mais tranquila, as pessoas são mais serenas, não existem aquelas exaltações que a gente vê na Câmara dos Deputados. Os senadores são pessoas extremamente inteligentes, independentemente de ideologia ou de comportamento, como o Álvaro Dias (Podemos/PR). Esses dias eu disse a ele que se não tivesse votado no Bolsonaro, teria votado nele. Sou super-fã e hoje é meu colega. Me sinto com um Fusquinha que foi parar em um monte de Ferrari. 

 

 

 

MidiaNews – A senhora atuou durante muitos anos como magistrada e sua palavra era ordem. Como está sendo ser mais uma voz dentro do Senado com dezenas de vozes?

 

Selma Arruda – Eu cheguei lá muito humilde. Você consegue mandar naquilo que você entende. No que não entende é difícil chegar “metendo o pé na porta”. Eu tive uma boa aceitação por ter um conhecimento jurídico razoável. Tive que mudar meu nome político porque ninguém me chamava de Selma, eles me chamavam de “juíza”. “Vamos perguntar uma coisa para ‘juíza’”. “E essa lei, juíza, é ou não constitucional?”. Eles acabaram me chamando para o meio deles, e isso é muito legal.

 

Eu gosto muito de conversar com Lasier Martins, Álvaro Dias, Antônio Anastasia (PSDB/MG)... E tem o senador Fabiano Contarato (Rede/ES), que é de um partido bem de esquerda, e superinteligente. Me dou bem com todos. Só não me dou bem com a ala do Renan Calheiros (MDB/AL).

 

MidiaNews – E quanto ao seu desempenho? 

 

Selma Arruda – Eu não tenho a vaidade de ser autora de projetos. Quando eu cheguei lá, pedi para fazerem uma pesquisa sobre o que já havia, e sobre o que eu pretendia fazer. E até alguns assessores já experientes disseram que eu não precisava aproveitar nada de ninguém. “A senhora pode fazer um igual, falar que é seu, deixa o outro arquivado, e entra em um que terá seu nome”.

 

Eu falei: “Gente, se o outro foi arquivado, mas já teve andamento, para que eu vou fazer isso?”. Então desarquivei vários deles, com nomes de outros senadores, e estou sendo relatora desses projetos. Eu não tenho essa vaidade. Talvez eu tenha apresentado dois ou três projetos, mas tenho mais 40 dos quais sou relatora e estou levando para frente.

 

MidiaNews – Todos voltados para legislação penal?

 

Selma Arruda – Alguns sim, outros nem tanto. Eu tenho uma preocupação muito grande com a questão de doenças raras, autismo... Com categorias que não têm voz, e precisamos dar voz. Há outras questões voltadas ao meio ambiente e ao agro. 

 

Eu acabei me ligando um pouco à FPA [Frente Parlamentar da Agricultura], mas coloquei o pé no freio na medida em que vi que pode ter algum choque com o meio ambiente. Não vesti a camisa completamente. E estou conhecendo as áreas, as comissões.

 

A CPI de Brumadinho, em que estou atuando, tenho certeza que dela sairá um projeto de lei bem legal. Que irá evitar ocorrência de tragédias não só em Minas, mas em todos os locais.

 

 

 

MidiaNews – Como a senhora vê essa dificuldade inicial do Governo Bolsonaro na articulação política, inclusive na demora da tramitação da Reforma da Previdência. Teme que o projeto não seja aprovado?

 

Selma Arruda – Eu acho que nem tanto. Eu estive olhando esses dias que o tempo de tramitação de um conjunto legislativo grande é muito longo. Então, está indo bem mais rápido do que o andamento do Código Florestal, por exemplo, que levou 12 anos para ser votado. Creio que há uma andamento normal.

 

MidiaNews – Então a senhora não vê dificuldades na articulação do Governo? 

 

Selma Arruda – Eu vejo uma certa resistência de alguns partidos com relação a essa questão do “toma-lá-dá-cá”. É uma coisa que o Governo não consegue fazer e não vai fazer. Saiu até um conversa esses dias de R$ 40 milhões e o [deputado federal José] Medeiros (Podemos) ficou bravo e se exaltou. E é de ficar bravo mesmo, porque são coisas que saem falando e que não está acontecendo. Talvez a dificuldade seja justamente essa: retomar a forma de fazer política sem “toma-lá-dá-cá”. E isso tem resistência.

 

MidiaNews – Críticos do Governo dizem que o presidente Jair Bolsonaro não estaria à altura do cargo. O que acha desse posicionamento?

 

Selma Arruda – Eu acho que o cargo a gente ocupa sabendo selecionar as pessoas certas para assessorar. Se eu cheguei lá como senadora, a minha primeira opção foi pegar pessoas de peso, porque eu tenho certeza que eu não conheço um quinto daquilo que está acontecendo. 

 

Eu não tenho a vaidade de ser autora de projetos

 

O mesmo acontece com a Presidência. Ele é um homem extremamente honesto. Eu tive prova disso pessoalmente. Em reuniões ele disse: “Nunca eu vou pedir nada para você. Eu sou PSL, você também é, e isso não quer dizer que eu vá te pedir alguma coisa como presidente. E você tenha que me atender. Seja você mesma. Legisle de acordo com as suas convicções”. E isso é difícil você ouvir de um líder. O contrário é que seria o normal. E era isso que eu queria ouvir. 

 

MidiaNews – O que mais lhe chamou a atenção no presidente?

 

Selma Arruda – No começo, quando eu vi o Jair Bolsonaro, queria saber se aquilo ali não era um personagem, essa capa de pessoa correta. Então você sempre fica com um pulguinha atrás da orelha: vai que no último capítulo ele se revela um monstro. E eu tive exatamente a certeza do contrário, ele foi absolutamente franco em dizer: “Decide do jeito que você quiser”. E complementou: “Não assine nada em que não possa retirar sua assinatura”. Ou seja, é preciso manter a palavra. Ele foi muito íntegro comigo. 

 

Ele tem condições. Pode haver equívocos, não são erros. Mas é que quando você quer mudar o modelo, você erra mais. Ficar no mesmo modelo é mais fácil. Então as coisas vão ter que se ajeitar aos poucos. 

 

Mas uma defesa eu preciso fazer: ele ainda está usando aquele colete, ainda está se recuperando da cirurgia. Talvez estivéssemos esperando muito de uma pessoa que estava debilitada até pouquíssimos dias atrás. A gente precisa ter essa consciência de que qualquer outro no lugar dele estaria de licença. Ele teve um prejuízo pessoal muito grande. Quem o viu de perto sabe a magreza e palidez que ele estava. E hoje, ainda com dor, dificuldade... Então, tudo isso são coisas que diminuem a capacidade da pessoa. 

 

MidiaNews – Mas isso não o impede de dar uma bronca nos filhos para ponderarem as opiniões nas redes sociais.

 

Selma Arruda – A gente está vivendo em um mundo em que a internet é a grande protagonista. As pessoas hoje pensam por meio da internet. A campanha do Bolsonaro foi toda feita em cima disso. Ele não precisava sair do lugar, não precisa viajar. Foi tudo feito diante de uma câmera e com manifestação em mídia social. É difícil hoje frear isso.

 

MidiaNews – A senhora também adotou essa estratégia das mídias sociais. Inclusive, no caso da sua cassação, o seu primeiro pronunciamento foi por meio das redes. 

 

Selma Arruda – Tentamos fazer isso para se comunicar melhor. Eu tinha uma necessidade muito grande de prestar contas para os eleitores. É muito triste você imaginar que a pessoa votou acreditando na sua integridade e ver uma votação dessa, e pensa: “Essa mulher é uma coisa oca”. A pessoa deve se sentir muito decepcionada. Eu precisava prestar contas disso, eu precisava falar. 

 

Por isso eu decidi prestar contas em plenário, porque eu também queria prestar contas aos colegas. E falei: aproveita, faz um vídeo, põe nas redes para as pessoas saberem o que aconteceu. Nem tudo o aconteceu e que está acontecendo eu posso falar. Eu digo que um dia escreverei um livro com personagens verdadeiros.

 

MidiaNews – Ainda sim, a senhora não acha que o presidente pode “morrer pela boca”. As declarações dele trazem consequência sociais e até econômicas ao País. 

 

Selma Arruda – Eu não posso falar muito porque quando faço uma “live” [recurso de transmissão ao vivo no Facebook] eu só falo bobagem. Você acaba cometendo sincericídios desnecessários.

 

 

Fonte: midianews

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