Paranatinga, 20 de Julho de 2018

Judiciário

Riva incrimina Bosaipo e diz que usou empresas para desvios

Político afirma que vai contar a verdade sobre esquema que teria operado na Assembleia Legislativa

"ME ARREPENDO MUITO" | 30/11/2016 21:14:50


O ex-deputado estadual José Riva, que confessou participar do esquema

LUCAS RODRIGUES E THAÍZA ASSUNÇÃO 
DA REDAÇÃO

O ex-deputado estadual José Geraldo Riva afirmou, durante audiência derivada da Operação Arca de Noé, que participou do esquema investigado na Operação Arca de Noé, que teria desviado dezenas de milhões na Assembleia Legislativa.

 

A audiência de 15 ações penais derivada da operação ocorre na tarde desta quarta-feira (30), na Vara Contra o Crime Organizado, no Fórum de Cuiabá. O interrogatório é conduzido pela juíza Selma Arruda.

 

Em seu depoimento, ele também citou os ex-deputados Humberto Bosaipo, Nico Baracat (já falecido) e Emanuel Pinheiro como beneficiários do esquema.


“Todos os deputados que receberam cheques derivados dessas empresas foi para uma vantagem pessoal indevida, independentemente de quem seja”, disse ele.

 

Riva também incriminou o ex-deputado Humberto Bosaipo e disse que o então colega na Mesa Diretora foi o idealizador e principal beneficiário dos desvios, ocorridos por meio de pagamentos a empresas de fachada, que simulavam prestação de serviços ao Legislativo.

 

"A grande maioria foi para pagar dívidas de campanha do Bosaipo, de Caixa Dois [dinheiro não declarado à Justiça Eleitoral], cerca de R$ 2,2 milhões. Eu também usei um pouco, mas a grande maioria era para o Bosaipo".

 

As ações são relativas aos alegados desvios ocorridos na Assembleia Legislativa de Mato Grosso (AL-MT), que vieram à tona com a Operação Arca de Noé, deflagrada pela Polícia Federal e o Ministério Público Estadual (MPE) em dezembro de 2002.

Segundo o MPE, 43 cheques nominais foram emitidos a empresas fantasmas, enquanto Riva comandava cargos da Mesa Diretora da Casa.

Parte do dinheiro desviado era remetido à Confiança Factoring, do ex-bicheiro João Arcanjo, como pagamento de empréstimos de despesas pessoais e de campanha.

 

Confira a audiência em tempo real:

 

Dívida de R$ 25 milhões (Atualizado às 16h09)

 

Riva contou que a situação começou em 1995, quando ele se deparou com uma dívida de R$ 25 milhões, grande parte com factorings.

 

"Fui chamado para uma reunião na presença do deputado Gilmar Fabris e de outros secretários, e foi me passada essa situação. Eu relutei, mas assumi o compromisso de pagar essas dívidas. Na época, a Assembleia não tinha crédito na praça. Tudo que comprava só podia usar cheque pré-datado da Paranorte. Por isso que surgiu essa figura da Paranorte".

 

Da dívida que existiu, 65% era com o João Arcanjo Ribeiro e o restante era com outros

"Os cheques eram dados para fornecedores para garantir o pagamento dos fornecedores. A empresa já existia lá em Juara, ela não foi aberta para isso, mas não tinha funcionamento assim. Só citei isso porque a Assembleia realmente não tinha crédito na época, mas essa da Paranorte não tinha desvio nisso. Só usamos esse artifício para atender as necessidades".

 

Segundo o político, a dívida milionária teria sido feita por outros deputados

 

"Em 95, 96, 97 não tinha ainda essas empresas da Arca de Noé. A dívida da Assembleia era uma dívida monstruosa, essa dívida veio da mesa do [Humberto] Bosaipo e [Gilmar] Fabris, mas poderia ser de outras gestões também".

 

"Aliado a tudo isso, também em função dessa situação da Assembleia, acabaram surgindo novas operações de coisas que foram feitas com as empresas do João Arcanjo. Da dívida que existiu, 65% era com o João Arcanjo Ribeiro e o restante era com outros".
 
Empresas de fachada (Atualizado às 16h19)
 
Riva afirmou que, na época da dívida, surgiu uma crise com o governo Dante de Oliveira (já falecido), em razão de o deputado Gilmar Fabris ter "se aproximado mais do governador".
 
"Me lembro de uma reunião na casa de João Arcanjo. A pretensão da reunião era que eu renunciasse ao cargo da presidência da Assembleia e em contrapartida eles pagariam a dívida com o João Arcanjo. Eu não aceitei a proposta e ganhei a eleição".
 

O governador Dante autorizou uma suplementação de R$ 22 milhões, fora do orçamento, para pagar o Arcanjo

"A dívida permaneceu no mesmo patamar. Fizemos um contrato com o Banco do Brasil para pagar os servidores, porque haviam alguns atrasados, porque antes quando entrava dinheiro ia para pagar factoring, coisas de campanha e imprensa".
 
Ideia de Bosaipo (Atualizado às 12h25)
 
De acordo com o político, a ideia para desviar dinheiro da Assembleia para pagar as dívidas foi do ex-deputado Humberto Bosaipo.
 
"As empresas de fachada surgiram em 1999 e 2000. O Humberto Bosaipo me procurou e disse que tinha como resolver essas questões das contas com os fornecedores".
 
"Ele disse que tinha umas empresas que já existiam e outras criadas pelo Nilson Teixeira, Joel e José Quirino, que nos ajudariam. Foram emitidos cerca de 700 mil em cheques com essas empresas que pagou João Arcanjo".
 
Riva cita Dante (Atualizado às 16h31)
 
Riva relatou que Dante de Oliveira chegou a autorizar um repasse para a Assembleia para colocar com o pagamento da dívida citada.
 
"O governador Dante autorizou uma suplementação de R$ 22 milhões, fora do orçamento, para pagar o Arcanjo. Se não pagasse ele [Arcanjo] nos ameaçava, eu mesmo fui ameaçado várias vezes".
 
"Posso garantir que essa conta [R$ 25 milhões] não foi feita naquela época, ela se arrastava há anos".
 
Desvio atendia interesses políticos (Atualizado às 16h35)
 
Riva detalhou que uma rádio pertencente a João Arcanjo chegou a receber R$ 4 milhões da Assembleia "sem anunciar nada".
 
"Os cheques era emitidos em nome das empresas e descontados na boca do caixa para atender interesses políticos, campanhas eleitorais e para pagar factoring".
 
Bosaipo foi o maior beneficiado (Atualizado às 16h50)
 
O político afirmou que a maior parte do dinheiro desviado teria sido destinado a Bosaipo.
 
"A grande maioria foi para pagar dívidas de campanha do Bosaipo, de Caixa Dois [dinheiro não declarado à Justiça Eleitoral], cerca de R$ 2,2 milhões. Eu também usei um pouco, mas a grande maioria era para o Bosaipo".
 

Eu posso assegurar que parte desse dinheiro foi usado por deputados para dívidas de campanha, para uso pessoal

"Além dessas operações, dessa conta de factoring, de deputados e o uso dessas empresas, existia na assembleia uma folha suplementar e muitos desses valores, cerca de R$ 300 mil, talvez seja possivel levantar isso, foram usados para financiar campanha de deputados e pagar factoring. Eu participei, o Bosaipo também".
 
Dinheiro bancou deputados (Atualizado às 16h57)
 
A juíza Selma Arruda afirmou que, em uma das ações, o MPE acusa ele e Bosaipo de terem assinado cheques para gráficas, restaurantes e agência de turismo, em mais de R$ 6 milhões, emitidos no ano 2000. Ela questiona Riva se essa informação é verdadeira.
 
"Quase 100% verdadeiro. Eu não tenho certeza se foi para todos as empresas. Eu não tenho condições de relatar nomes, mas vou verificar tudo isso e passar por escrito para a senhora. Eu posso assegurar que parte desse dinheiro foi usado por deputados para dívidas de campanha, para uso pessoal. A maioria dos deputados tinha casa de apoio, com certeza bancado com esse dinheiro. Isso é de uso pessoal, mas era uma demanda que foi atendida. Essas empresas foram usadas até para pagar contas legais, passagens, por exemplo".
 
Selma Arruda citou todas as demais ações penais e Riva confirmou que não houve prestação de serviços que as empresas foram usadas para pagar dívidas de factoring, campanha e uso pessoal de deputados.
 
Outros envolvidos (Atualizado às 17h26)
 
A juíza questionou sobre cheques encontrados na empresa Piran Factoring, do empresário Valdir Piran.
 
"Ele [Piran] adquiriu um crédito com o João Arcanjo. Eles eram muitos parceiros. Ele pagou uma das dividas do João Arcanjo com a Assembleia e passou a ser credor de uma das empresas".
 
Selma Arruda ainda pediu para Riva detalhar o envolvimento dos corréus.
 
Humberto Bosaipo: "Sabia e participava. Quando eu fiz a minha introdução sobre a dívida e depois sobre as empresas, eu não quis me defender. O Humberto não é mais culpado do que eu, mas eu não comecei essa dívida. São dívidas da gestão passada, e não conheço essas empresas".
 
Guilherme da Costa Garcia: "Era o secretário-geral, naturalmente sabia. Se ele se beneficiou, entretanto, eu não sei".
 

Não sei se valeu a pena, na verdade, com certeza não valeu a pena. Só quero deixar claro que não fui forçado, eu aceitei participar disso, optei pelo mais fácil

Juraci Brito: "Ele está nesse processo por causa do Bosaipo. Se parou alguma coisa na conta dele não foi para ele. Ele era apenas uma pessoa que fazia o que o Bosaipo mandava. Não sei se ele tinha conhecimento se o que fazia era ilegal".
 
Geraldo Lauro: "Ele não tem ciência nenhuma".
 
Nilson Roberto: "Era um dos mentores do que o João Arcanjo fazia. O método do João era muito duro, todo mundo sabe disso. Ele participou disso, com certeza". 
 
Benedito Pinto: "Pode ter sido beneficiado como deputado, mas participar do processo não".
 
Selma Arruda ainda perguntou se havia "mensalinho" na Assembleia Legislativa.
 
"Não sei se posso dizer mensalinho, mas tenho que ser justo: muitos deputados não pegavam nada, sabiam, e não pegavam".
 
"Então havia luz no fim do tunel", brincou a juíza.
 
"Com certeza", respondeu Riva.
 
"Me arrependo muito" (Atualizado às 17h38)
 
Riva alegou que está arrependido de ter participado deste esquema no Legislativo Estadual.
 
"Eu me arrependo muito. Eu perdi dinheiro, tempo. Se eu não fosse deputado estadual, seria o homem mais rico de Mato Grosso, eu tinha potencial para isso. Mas como parlamentar, eu administrava conta e sofria ameaça. A prisão do Arcanjo foi um alívio, pelo menos nos livramos daquela situação que não tinha remédio".
 
"Aqui ninguém tinha coragem de enfrentar o Arcanjo. Eu não escolhi ele, ele já estava lá. Quando eu aceitei o jogo não consegui sair mais".
 
A juíza questionou a fala de Riva e disse que, pelo relato, parece que o ex-deputado entrou rico e saiu pobre do esquema.
 
"Eu me beneficiei, mas saí prejudicado também. Eu não quero passar para a senhora que fui vítima. Quando eu aceitei isso, passei a ser meio escravo, porque eu não sabia que aquelas pessoas agiam daquela forma. Cheguei a pensar que não ia sobreviver, mas, graças a Deus estou vivo. Não sei se valeu a pena, na verdade, com certeza não valeu a pena. Só quero deixar claro que não fui forçado, eu aceitei participar disso, optei pelo mais fácil. Eu participei de quase todas as operações".
 
O promotor de Justiça Sergio Costa perguntou sobre a participação do deputado e prefeito eleito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro, e do ex-deputado Nico Baracat (já falecido). Riva confirma que eles receberam.
 
“Todos os deputados que receberam cheques derivados dessas empresas foi para uma vantagem pessoal indevida, independentemente de quem seja”.

 

Fonte: Midia News

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