Paranatinga, 18 de Novembro de 2017

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Mato Grosso só ganhou com a divisão do Estado, dizem analistas

40 anos | 13/10/2017 13:45:35


Há 40 anos, no dia 11 de outubro de 1977, era instituída pelo presidente Ernesto Geisel a Lei Complementar 31. Com a nova legislação, Mato Grosso perdia 28% de seu território de 1,2 milhão de quilômetros quadrados. Nascia, então, o Estado de Mato Grosso do Sul. 

 

Os cuiabanos eram resistentes ao movimento de divisão, que havia começado ainda na Guerra do Paraguai (1864-1870).

 

Mas, foi com a Revolução Constitucionalista, em 1932, que o movimento comandado por campo-grandenses ganhou força e mais adeptos.

 

“O receio da época era de que, caso acontecesse a divisão, Mato Grosso de cá seria prejudicado, já que a parte rica ficava ao Sul”, lembra o historiador e analista político Alfredo da Mota Menezes.

 

Mas havia uma outra corrente de pensamento. Essa corrente dizia que a parte do Sul, por ter mais influência política à época, possuía ferrovia, hidrovia e estava mais perto de São Paulo. E apenas com a divisão do Estado é que Mato Grosso do "Norte" poderia se desenvolver. 

 

“Se o Estado não tivesse sido divido, o Sul teria mais força política. Todo esse investimento que aconteceu no Norte pós-divisão teria ficado no Sul. Campo Grande tinha mais representatividade política”, afirma o analista político Onofre Ribeiro. Em 1977, ele trabalhava em um cargo de confiança na Comunicação do Governo Garcia Neto. 

O receio da época era que, caso acontecesse a divisão, Mato Grosso fosse prejudicado", revela Alfredo Menezes

 

Com a divisão, Mato Grosso ficou com 38 municípios e Mato Grosso do Sul, com 55. Os dois analistas avaliam que, mesmo com a resistência cuiabana à época da divisão, houve apenas ganhos para o Estado.

 

“Eles têm território menor e não desenvolveram tanto quanto aqui. Nós tínhamos o Nortão inteiro para ser ocupado, o Médio Norte todo e a região Amazônica. Nós ocupamos, tanto que passamos de 38 para 141 municípios, permitindo que o Estado se desenvolvesse, se tornasse um grande produtor de commodities”, diz Onofre.

  

Ribeiro lembra que, com o descontentamento dos cuiabanos e a implicância campo-grandense, a divisão deixou os ânimos mato-grossenses ainda mais exaltados.

 

“A divisão do Estado não foi pacÍfica. Por exemplo, eu me lembro bem, tudo que tinha em Cuiabá, tinha que ter em Campo Grande. Se o Governo do Estado comprasse um carro para Cuiabá, teria que comprar para Campo Grande”, diz.

 

Isso porque, em 1977, Mato Grosso foi desmembrado, mas apenas ganhou status de Estado dois anos depois, conforme determinava  a Lei Complementar.

 

Em 1977, a população mato grossense era de 598.879 habitantes. Já a sul-mato-grossense chegava a 998.211.

 

No entanto, após a divisão, a porção Norte elevou sua população de forma exponencial, a ponto de ultrapassar o Sul. Hoje, Mato Grosso tem 3.495.424 de habitantes e Mato Grosso do Sul, 2.619.657, conforme o IBGE.

 

Integrar

 

Com a divisão, o então presidente Ernesto Geisel implementou um programa para incentivar a vinda de imigrantes para a região central do País. O objetivo era trazer desenvolvimento e minimizar problemas sociais, como desemprego, no País.  

 

“O problema demográfico no Sul do país tinha que ser resolvido. A divisão, então, foi com essa intenção. Num primeiro momento, os cuiabanos achavam que o mundo ia acabar. Com o advento da agricultura, nós passamos o PIB [Produto Interno Bruto] do Mato Grosso do Sul, e de ‘patinho feio’ que éramos passamos a cisnes”, diz Alfredo Menezes. 

 

"Integrar, para não entregar"

 

A Capital mato-grossense dependia financeiramente da região Sul do Estado para se manter. Politicamente forte, o Sul do Estado tinha a seu favor três senadores e metade dos deputados federais. 

 

O temor por parte dos cuiabanos era de o Estado quebrar com a divisão. No Regime Militar, quem nomeava os governadores e um dos três senadores do Estado era o Governo central.

 

“Os governos militares estavam ocupando a Amazônia, com um programa com o mote ‘Integrar, para não entregar’. Eles sabiam que o Sul de Mato Grosso já tinha uma boa infraestrutura. Já o Norte era muito abandonado, muito isolado”, afirma Onofre Ribeiro.

 

“Então, os militares decidiram que, para ocupar a Amazônia, teriam que separar o Sul do Norte, para que aqui fosse o ponto de entrada da Amazônia”, completa.

 

Cuiabá x Campo Grande

 

A rixa entre cuiabanos e campo-grandenses estava sendo criada e cultivada desde a Revolução Constitucionalista. O argumento era: “Nós produzimos, eles consomem”.

 

“Toda riqueza econômica de Mato Grosso estava em Campo Grande, que se concentrava na pecuária. Os fazendeiros da região mandavam os filhos estudar em São Paulo, os filhos voltavam com uma ideia de que a riqueza era do Sul, e o Norte não produzia nada, só gastava o que eles produziam”, conta Onofre Ribeiro. 

 

Histórico

 

Um dos primeiro registros organizados de tentativa de divisão territorial aconteceu ainda em 1889, quando políticos do Sul elaboraram um manifesto em que pediam a transferência da Capital de Mato Grosso para Corumbá. Esse teria sido o marco inicial do movimento separatista.

 

[ERNESTO GEISEL]

O presidente Ernesto Geisel assina a Lei Complementar que dividiu Mato Grosso

A partir de 1920, com a transferência do comando da Circunscrição Militar para Campo Grande e o aumento do contingente militar no Sul de Mato Grosso, as oligarquias sulinas aliaram-se aos militares, fortalecendo o movimento.

 

A organização ganha força mesmo a partir de 1932, quando os sul-mato-grossenses se juntaram aos paulistas e lutaram na Revolução Constitucionalista.

 

O levante serviu para divulgar a ideia divisionista e Campo Grande tornou-se o centro político de difusão do movimento.

 

Neste mesmo ano, foi criada a chamada Liga Sul-Matogrossense, que pedia a autonomia do Sul.

 

A partir do golpe de 1964, os políticos divisionistas aproximam-se dos militares. Assim eles passam a tomar parte de algumas comissões que estudavam as potencialidades políticas que impediam a divisão de Mato Grosso.

 

 

Fonte: MidiaNews

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