Paranatinga, 21 de Setembro de 2018

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Após morte do filho, casal decide lutar por doentes em MT

ESQUIZOFRENIA | 29/07/2018 12:13:39


 

 

Após vivenciar a dor da trágica morte do filho, diagnosticado com esquizofrenia, o casal Sônia Toffoli Avila Ameida e Luiz Augusto de Almeida decidiu encampar uma luta pela conscientização e por mais estrutura para o tratamento da doença em Mato Grosso.

 

O filho, André Toffoli Ávila de Almeida, de 33 anos, se matou no último dia 20 de julho no prédio onde a família mora, em Cuiabá.

 

A esquizofrenia é uma desestruturação psíquica que faz com que a pessoa perca a noção da realidade e não consiga mais diferenciar o real do imaginário. É um dos principais transtornos mentais de que se tem conhecimento. O índice de suicídios entre os portadores chega a ser 8 vezes maior que na população geral.

  

Apesar de acometer 1% da população mundial, segundo o Ministério da Saúde, ainda não há uma explicação clara de como a esquizofrenia se manifesta. Mesmo não sendo comprovado, muitos acreditam que fatores ambientais, traumas, humilhações públicas e envolvimento com drogas podem contribuir para o seu desenvolvimento.

 

Ainda vivenciando o luto, Sônia e Luiz Augusto aceitaram receber a reportagem do MidiaNews e falar do sofrimento e o desamparo de ter um filho com essa doença.

 

“A gente lutou por 13 anos. E é uma luta ingrata, porque quando você acha que está bem, vêm as crises. E a gente só podia dar carinho e atenção. Era só esse o tratamento que a gente podia dar e foi o único que ele recebeu”, desabafa Sônia.

 

 

A gente lutou por 13 anos com essa doença do meu filho, e é uma luta ingrata, porque quando você acha que está bem, vêm as crises

De acordo com ela, os primeiros sintomas surgiram quando André ainda tinha 20 anos - e o que desencadeou foi o uso de drogas.

 

Sônia lembra que o filho sempre foi muito festeiro e bastante comunicativo. Adorava sair com os amigos, e os pais nunca imaginaram que ele poderia ter a doença, até o primeiro surto.

 

“Meu filho era muito festeiro. Fazia muita festa em Cuiabá, mas infelizmente o que desenvolveu a esquizofrenia nele foram as drogas. Há muito tempo não mexia mais com isso. Vivia só com a doença. Falo isso porque sei que há muitos pais que convivem com a doença e com as drogas, mas o André fumava apenas cigarro”, conta.

 

Após a descoberta da doença, a família passou a viver em prol de André, que a cada dia ficava pior. Ele foi diagnosticado com esquizofrenia catatônica, que tem como os principais sintomas a agitação, a perda de contato com a realidade e alucinações vívidas.

 

“Nós fomos tratando até que começou um dos sintomas principais, que é o isolamento social. Ele foi se isolando tanto que praticamente tinha uma vida “vegetativa”’, explica Luiz, que é médico alergista em Cuiabá.

 

Desde que a doença surgiu, André tentou o suicídio por três vezes. Na primeira quis se jogar da sacada do apartamento onde morava com a família, e as outras duas por meio de overdose de medicamentos.

 

Na quarta e última, ele consumou. André foi encontrado asfixiado com um cinto no pescoço, no terraço do prédio.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

 

O casal considera o momento como uma oportunidade para levantar uma “bandeira” 

Sônia e Luiz contam que ainda estão de luto pela perda do filho, mas que consideram o momento como uma oportunidade para levantar uma bandeira por famílias que convivem com uma pessoa doente em casa.

 

“Eu só tenho um consolo: meu filho descansou. Só que a gente quer entrar nessa luta pelos outros, porque aqui em Mato Grosso a gente não tem apoio nessa causa. Os nossos filhos não têm espaço em hospital, nem público, nem privado. A gente precisava que nossos filhos se sentissem acolhidos. O Adauto Botelho não é o local certo para quem tem esquizofrenia. Quando meu filho tinha crise, eu não tinha para onde levá-lo. Em todos os outros estados há um ‘hospital-dia’. Acho que poucos são os que não possuem um assim, direcionado para pacientes esquizofrênicos. Mato Grosso é um dos que não têm. É um caos”, lamenta Sônia.

 

O hospital-dia é um estrutura organizacional com um espaço físico próprio onde se concentram meios técnicos e humanos qualificados, que fornecem cuidados de saúde de modo programado a doentes ambulatoriais, com alternativa à hospitalização clássica, por um período normalmente não superior a 12 horas, que não requer uma estadia durante a noite.

 

Os hospitais-dia também se destinam ao atendimento de pacientes psiquiátricos que estão sendo reintegrados ao convívio social, sendo que o atendimento é intensivo, ou seja, o paciente frequenta a unidade diariamente durante o período diurno, passando o restante do dia com a família e a comunidade onde reside.

 

 

“Mãos de Mães em Mato Grosso”

 

Sônia participa de um grupo de apoio criado por meio do aplicativo WhatsApp, que inclui pelo menos 14 mães de Cuiabá, chamado “Mãos de Mães em Mato Grosso”.

 

Após a recente perda de Sônia, todas tomaram a dor para si e agora buscam chamar a atenção para a falta de tratamento adequado.

 

A gestora Ana Marta Barato, de 45 anos, também tem um filho com esquizofrenia, e, segundo ela, o que mais pesa é não conseguir ajuda devida durante as crises.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

 

"Eu só tenho um consolo: meu filho descansou", disse Sônia

À reportagem, ela revelou que o rapaz, de 26 anos, já tentou tirar a própria vida mais de 20 vezes, e que, por isso, vive sem saber se ao retornar do trabalho ainda encontrará o filho vivo.

 

“Fui por várias vezes para casa não sabendo o que iria encontrar, porque moramos só eu e ele. E infezlimente ele fica sozinho quando estou trabalhando. Morro de medo de estar trabalhando e receber uma noticia trágica igual à que aconteceu com a Sônia. Por isso, quando recebi a notícia que o filho dela tinha morrido, me sensibilizei bastante, porque pensei que isso pode acontecer comigo algum dia”, desabafa.

 

Já Catia Lúcia da Silva, de 55 anos, relata que vive para cuidar do filho de 30. O seu maior é medo é que um dia algo aconteça com ela e ele fique sem alguém para ampará-lo.

 

“Eu estou nessa luta há 15 anos. Somos só eu e o irmão dele. Se eu falto, quem vai ajudá-lo? Porque o irmão tem sua própria vida. Quem vai cuidar dele? O irmão não vai desamparar, mas não vai parar de trabalhar para cuidar do irmão doente”.

 

“Acho que a gente é totalmente desamparado em termos de Estado, com medicação, e até mesmo com benefícios. É um absurdo!. A gente não tem um hospital-dia para nos apoiar”, disse.

 

Luiz, que não participa do grupo do WhatsApp, também apóia a causa e afirma que irá ajudar as mães para que as melhorias aconteçam.

 

“Quando o doente mental entra em crise, necessita de uma internação hospitalar, nem que seja para tirá-lo daquela crise e continuar o tratamento ambulatorial em casa. Só que nem isso aqui você tem. Se você chegar a qualquer hospital e falar que o problema é psiquiátrico, eles criam a maior dificuldade para internar, porque falam que não tem pessoal qualificado para isso, e evitam ao máximo. Muitas vezes nem tem no seu corpo clínico um psiquiatra. E quando tem é jovem demais, sem a menor experiência e não sabe lidar com a situação. Em Mato Grosso há um descaso com pacientes que têm problemas mentais”.

 

 

Fonte: Midia News

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