Paranatinga, 13 de Dezembro de 2018

Eleições

TECNOLOGIA ELEITORAL

É humanamente impossível fraudar o resultado da urna eletrônica

Publicado 30/09/2018 09:50:17


 

 

Desde que o candidato a presidência do Brasil Jair Bolsonaro (PSL) levantou suspeitas de possível fraude nas urnas eletrônicas durante a votação do próximo dia 7 de outubro, muitos eleitores passaram a desconfiar da segurança do processo.

 

Em Mato Grosso, o secretário de Tecnologia da Informação do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), Luiz Cézar Darienzo, garantiu que o equipamento é100% confiável.

 

Em entrevista ao MidiaNews, ele lembrou que a urna eletrônica  surgiu para corrigir as fraudes que existiam na votação em cédulas de papel, como, por exemplo, o arremesso das urnas com os votos em rios.

 

Ressaltou que o modelo de votação defendido por Jair Bolsonaro, o voto impresso, é como voltar ao padrão passado, ou seja, de fraudes.  

 

Segundo Darienzo, é “humanamente impossível” fraudar uma urna eletrônica com a tecnologia desenvolvida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e que, segundo ele, é uma das melhores do mundo.

 

“Hoje o maior problema que temos na eleição não é tecnológico, mas sim, cultural, educacional, que é a compra de votos”, defendeu.

 

Veja os principais trechos da entrevista: 

 

 

A urna eletrônica já veio para corrigir um processo de fraude. Quando nós tínhamos o voto em papel, a quantidade de fraudes era muito maior

MidiaNews - Quais as medidas de segurança que a Justiça Eleitoral toma para evitar fraudes na urna eletrônica?

 

Luiz Cézar Darienzo – A urna eletrônica já veio para corrigir um processo de fraude. Quando nós tínhamos o voto em papel, a quantidade de fraudes era muito maior. Você conseguia jogar uma urna no rio, trocar ou alterar os votos, ou até retirar os votos de dentro da urna. Então, a urna eletrônica já veio para acabar com esses problemas. Diferente de outros países, a nossa segurança não fica só em cima da urna. Existe um processo eleitoral inteiro montado com várias etapas de auditorias cruzadas que permite com que a gente consiga analisar se o voto está integro ou não.

 

Nós começamos os trabalhos já em janeiro do ano eleitoral. O primeiro processo é a realização do teste público de segurança, que dá possibilidade de todos os brasileiros maiores de 18 anos ter acesso ao código fonte de todos os sistemas que rodam na urna, da preparação da urna e na transmissão de resultados. Com acesso a esse código, a pessoa vai no Tribunal Superior Eleitoral e pode tentar invadir a urna com todos os mecanismos que ela entender necessário. Só para você ter uma ideia, no último teste teve cerca de quatro a cinco equipes tentando invadir e nenhuma delas conseguiu alterar o voto.

 

Na sequência nós temos um processo que chamamos de lacração de software.  Antes, porém, esse software passa por uma auditoria de 150 dias no Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil, Associação Brasileira de Computação e outras instituições para analisar o código fonte que é o programa que roda na urna eletrônica. Após esses 150 dias, nós calculamos um número baseado no código fonte da urna eletrônica que foi auditado. Esse número é único, se eu trocar uma vírgula nesse código, esse número muda. Então eu não consigo, tendo esse número, mudar o código e obter o mesmo número.

 

Logo depois disso, nós fazemos a carga e lacre das urnas eletrônicas, que consiste em colocar o software nas urnas, e carregamos os candidatos e os eleitores que vão para aquela urna específica.

 

Nas vésperas da eleição, os tribunais regionais de todo Brasil sorteiam um conjunto de urnas para fazer uma votação paralela, que é um processo de auditoria.

Nós aqui em Mato Grosso sorteamos três urnas que já estão espalhadas no Estado, vamos lá e retiramos das seções, colocamos outra no lugar e trazemos para Cuiabá. No dia da eleição, às oito horas da manhã, junto com todas as outras urnas nós começamos a votação nas três urnas com transmissão ao vivo.

A pessoa vai lá faz o voto no papel, mostra para a câmera que estará filmando e vota na urna de acordo com aquele voto que está no papel. Só para ressaltar, a votação nessas urnas não entra no resultado das eleições, é só para uma auditoria. Quando chega 17 horas nós apuramos essas urnas para verificar se a quantidade de votos da urna eletrônica é a mesma que está no papel. A ideia é mostrar que a urna está somando corretamente.

 

MidiaNews – E se der algum erro?

 

Luiz Cézar Darienzo – Se der algum erro em alguma urna que foi sorteada para fazer essa auditoria em qualquer parte do país, nós teremos um problema eleitoral. Será analisado primeiro se aquela urna teve um problema de bateria ou não e para isso existe uma junta com juízes, promotores e fiscais de partido. Mas, se no final das contas for identificado que o software somou errado, isso pode retroagir a eleição em nível nacional. Ela [auditoria] é feita para isso, para garantir que as eleições que estão em andamento nas escolas seja uma eleição íntegra. Vale ressaltar, porém, que em 20 anos, isso nunca aconteceu.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

 

"Olhando tecnicamente, o voto impresso reduz a segurança, tendo em vista como o processo eleitoral brasileiro é montado hoje"

MidiaNews - O que senhor acha do voto impresso, como propõe o candidato a presidente Jair Bolsonaro?

 

Luiz Cézar Darienzo – Olhando tecnicamente, o voto impresso reduz a segurança, tendo em vista como processo eleitoral brasileiro é montado hoje, com toda essa estrutura que eu já expliquei. Por que eu digo isso? No voto impresso, o eleitor vota, esse voto passa em uma tela e se tiver tudo certo, o eleitor confirma. Em seguida, o voto cai como uma cédula de papel na urna, do mesmo jeito que era feito no passado. Se no trajeto alguém jogar uma urna dessa no rio, o que vai valer? O voto impresso ou voto que estava na urna? Eu não vou ter mais o papel para confirmar. 

 

MidiaNews - As fake news ajudam a disseminar a impressão de que a urna eletrônica não é segura?

 

Luiz Cézar Darienzo – Sim, elas nos atrapalham bastante. Existe um estudo da Universidade de Harvard feito em convênio com a Universidade de Sydney, que mostra a integridade do processo eleitoral no mundo. Nosso nível de integridade é o mesmo que dos Estados Unidos e de parte da Europa.

 

Para você ter uma ideia, a nossa nota em processo eleitoral e em tecnologia é uma das maiores do mundo.

 

A nossa nota só fica muito baixa em cobertura de campanha pela imprensa - por conta dos vários fake news que surgem. Não estou falando dos meios oficiais de comunicação, mas das redes sociais em si - e financiamento de campanha.

 

Então, essas fakes news em cima da urna eletrônica acabam gerando um descrédito para a instituição. Além disso,  tem um efeito secundário que é ruim para a democracia, porque se o eleitor desacredita no voto, ele deixa de votar, e isso retira a sua opinião do processo.

 

MidiaNews - Qual a importância da zerézima na segurança do voto?

 

Luiz Cézar Darienzo – Como os partidos políticos, a Ordem dos Advogados do Brasil, Ministério Público, Polícia Federal e outras instituições podem auditar o código fonte da urna 150 dias antes do processo de carga e lacre, eles sabem como o programa é feito e podem verificar lá como que funciona a impressão da zerézima.

 

Então, se essas instituições têm certeza que programa faz essa contagem corretamente, no dia da votação, quando é retirada a zerézima, só se confirma que aquela urna tem 0 votos. A importância da zerézima é essa, mostrar que dentro do banco de dados não tem nenhum voto registrado ainda.

 

MidiaNews - Depois que a urna é fechada, no final da tarde, qual é o procedimento?

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

 

"A importância da zerézima é essa, mostrar que dentro do banco de dados não tem nenhum voto registrado ainda"

Luiz Cézar Darienzo – Quando se encerra a votação, saem as três vias de boletim de urna, que é a totalização de votos daquela urna. Uma é fixada na parede da seção. Outra entregue para os fiscais dos partidos e a última enviada para o cartório eleitoral. Junto com esses papéis, sai uma mídia de resultado, que é uma espécie de pen drive com a somatória dos votos ali dentro. É importante lembrar que esse resultado é tudo criptofrafado. Então, se eu pegar esse pen drive, por exemplo, e colocar em um computador eu não vou conseguir entender nada que está ali porque está tudo criptografado.

 

Essa mídia [pen drive] é colocada pelo responsável em enviar o resutado (seja pelo computador da própria escola de votação ou do cartório eleitoral) numa plataforma chamada 'JE Connect', que é uma plataforma de transmissão que roda em cima de pen drive. De lá, ele [resultado] sai em um sistema completamente apartado e é depositado no TRE. Uma vez depositado no TRE, nós abrimos o resultado e somamos os votos estaduais -deputado estadual, federal, governador, senador - e totalizamos parcialmente os votos de presidente, que segue para o TSE para ser somado em nível nacional.

 

Uma vez que nós somamos aqui, nós disponibilizamos a cada cinco minutos o resultado para o TSE, que vai para o centro de divulgação de resultados. Esse é o trajeto total.

 

MidiaNews - Não existe risco de haver um ataque de hacker no momento da transmissão dos votos, por exemplo, da escola, cartório eleitoral  para o TRE e do TRE para o TSE?

 

Luiz Cézar Darienzo - Não. Esse trajeto é feito através de um tubo, um sistema criptografado, numa rede privada. Por mais que as vezes a gente passe por cima da internet, o túnel é criptografado, com a mesma tecnologia que os bancos utilizam para você acessar a sua conta, ou seja, nós usamos a mesma tecnologia, com a mesma complexidade, com o mesmo nível de segurança.

 

Se um hacker tiver acesso a rede onde nós enviamos os votos, ele vai enxergar um monte de dados embaralhados, com bolinhas, quadradinhos. Ele não consegue saber o que é aquilo ali. E o tempo de transmissão é tão curto que não dá tempo dele retirar aquilo ali, quebrar várias camadas de segurança, para abrir, modificar e ainda reassinar como se fosse a urna eletrônica. É humanamente impossível fraudar o resultado da urna eletrônica. O processo é muito complexo. Hoje o maior problema que temos na eleição não é tecnológico, mas sim, cultural, educacional, que é a compra de votos.

 

MidiaNews - A urna entra em contato com a internet?

 

 

É humanamente impossível fraudar o resultado da urna eletrônica. O processo é muito complexo. Hoje o maior problema que temos na eleição não é tecnológico, mas sim cultural, educacional, que é a compra de votos

Luiz Cézar Darienzo – Não. É totalmente desconexa. E uma vez que ela solta essa memória com o resultado, permanece desconectada o tempo todo.

 

MidiaNews -  Como é feita a segurança das urnas para que se evite um ataque físico a elas?

 

Luiz Cézar Darienzo – Depois que se encerra a votação, as urnas são levadas para os cartórios eleitorais para a transmissão dos votos, mas na grande maioria, os votos já saem de lá para Cuiabá de dentro da própria escola, ou de uma escola ao lado. Mas digamos que alguém suma com a mídia da urna que ainda vai transmitir os dados do cartório eleitoral. Quando chega no cartório eleitoral, a urna é analisada e se for detectada alguma violação, é feito um processo para que a urna emite o resultado de novo. Coloca outra mídia e ela reemite. Então eu tenho uma memória interna, se eu perdi o resultado, coloca uma nova mídia de resultado e ela replica o que está na memória interna para essa mídia. E claro, quando se chega aqui, nós temos a conta de quais urnas transmitiram e qual não transmitiram.

 

MidiaNews - As urnas de Mato Grosso já foram alvos de hacker?

 

Luiz Cézar Darienzo – Não. No Brasil inteiro, os ataques que ocorreram foram sempre no teste público de segurança e até hoje ninguém conseguiu alterar os votos nesses testes e lembrando que o teste público não é uma competição, é apenas uma forma da sociedade contribuir para a melhoria do processo eleitoral. Toda vez que alguém acha uma falha, alguma coisa, nós corrigimos.

 

MidiaNews -  Se as urnas eletrônicas são tão boas por que países de primeiro mundo não as usam?

 

Luiz Cézar Darienzo – Usam. Existe um site de democracia mundial que mostra que vários lugares do mundo utilizam a urna eletrônica, inclusive países de primeiro mundo, como Estados Unidos, na Europa. Só que cada um utiliza de uma maneira diferente. Por exemplo, nos Estados Unidos, como cada Estado tem sua própria regra, cada um executa de maneira diferente. Um Estado contrata uma empresa para fazer a votação, a outra faz no papel, outro contrata uma urna eletrônica. Aparece muito nos jornais, um Estado que as pessoas votam numa célula bem grande e deposita no correio. Aquela cédula vai para equipe que totaliza e quem conta aquelas cédulas não é uma pessoa, é um robô, como uma máquina de contar dinheiro. Na Europa, vários países utilizam a votação eletrônica, normalmente. O continente que menos utiliza a votação eletrônica é a África.

 

 

Nós tentamos não crer nessa questão de ideologia. Se acreditássemos nisso, nós estaríamos pensando num país que quer acabar com algo que combate a corrupção, para voltar ao modelo anterior de corrupção

MidiaNews – O senhor considera que existe uma questão ideológica por trás de tantas críticas à urna eletrônica?

 

Luiz Cézar Darienzo – Nós tentamos não crer nessa questão de ideologia. Se acreditássemos nisso, nós estaríamos pensando num país que quer acabar com algo que combate a corrupção, para voltar ao modelo anterior de corrupção, por isso evitamos esse raciocínio. Entendemos que existe um conjunto muito grande de falta de informação que faz com que isso floresça de alguma forma. Alguns candidatos, talvez por falta de informação, por não ter conseguido acompanhar ou alguns partidos por não ter conseguido fazer uma auditoria como gostaria e talvez com na tendência até de justificar o que ocorreu no pleito, acabam gerando um assunto que ele se propaga de forma distorcida do futuro.

 

MidiaNews - Duvidar da segurança da urna eletrônica é má fé de quem teme perder a eleição ou é ignorância?

 

Luiz Cézar Darienzo – Eu acredito que não seja má fé, acho que é mais uma questão de não conhecer o processo como um todo. Na Justiça Eleitoral nós até discutimos como trazer mais os partidos para dentro do processo eleitoral. Nesse período agora, no Brasil todo nós estamos fazendo a cerimônia de carga e lacre que é uma cerimônia pública, cujo os fiscais dos partidos deveriam participar, mas praticamente nenhum partido acompanha, quem acaba acompanhando é o Ministério Público, os juízes eleitorais. Ou seja, os próprios partidos não têm muito esse viés técnico de acompanhar o processo. Por não se envolverem tanto, acaba tendo essa falta de informação e essa falta de informação gera todo esse ruído.

 

Fonte: Midia News

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