Paranatinga, 20 de Novembro de 2017

Cidades

"Hábitos do mato-grossense contribuem para o câncer de próstata"

Urologista Walid Khalil explica que preconceito ainda afasta muitos do exame do toque retal

ALTA INCIDÊNCIA | 05/11/2017 13:31:59


Com 18 anos de experiência, o urologista Walid Khalil avalia que o tabu em torno do exame da próstata já não é tão intenso quanto antes, embora ainda haja certa resistência dos homens ao toque retal.

 

Apesar disso, ele diz que a prevalência da doença em Mato Grosso é "assustadora". E enxerga uma das prováveis causas para a quantidade de casos: o estilo de vida.

 

"Isso está muito associado ao estilo de vida do homem mato-grossense. Hoje a nossa população é uma das mais obesas do Brasil. A obesidade está intimamente relacionada ao câncer de próstata", afirma o médico.

As piadas são comuns da porta para fora. Quando chegam aqui dentro, geralmente, acaba a piada

 

"O mato-grossense gosta muito de churrasco. O churrasco tem substâncias cancerígenas por conta da queima da gordura e do carvão. E isso acaba, possivelmente, aumentando também o risco para o desenvolvimento de qualquer tipo de tumor".

 

MidiaNews - Entramos em novembro, o mês de conscientização sobre o câncer de próstata. As campanhas têm surtido efeito?

 

Walid Khalil - Novembro foi escolhido para ser o mês simbólico na prevenção de câncer de próstata porque já existe em outros países. Isso começou na Europa, principalmente na Bélgica. Esse controle através de uma campanha de prevenção e rastreamento do câncer de próstata se estendeu para várias outras sociedades internacionais de urologia. Aqui no Brasil, nós temos a Sociedade Brasileira de Urologia, que encampa essa campanha de prevenção e conscientização do câncer de próstata no mês de novembro. E ainda existe um certo preconceito da classe masculina em procurar um urologista para fazer o seu rastreamento, para fazer o exame preventivo do câncer, porque esse exame preventivo inclui o toque retal e ainda é um tabu para alguns homens. A maioria dos homens ainda tem um tabu em relação ao toque. Mas a campanha tem surtido muitos efeitos, sim.  Bons efeitos, na verdade. Por isso que hoje a gente pode imprimir essas campanhas no aumento do diagnóstico do câncer.

 

MidiaNews - O senhor acha que o preconceito e o temor com o toque ainda são grandes ou têm diminuído?

 

Walid Khalil - Tem diminuído, mas ainda são grandes sim. Muitos homens deixam de procurar um urologista porque têm receio, têm medo que na primeira consulta, no primeiro momento, já vão ter que ser submetidos ao toque. Na verdade, não é bem assim.

 

MidiaNews - Ainda existem aqueles pacientes que sentem ofendidos em sua masculinidade?

 

Walid Khalil - Não. O que a gente vê na prática: ou o paciente vem e aceita o exame, aceita ser examinado, fazer o exame completo; ou então esse paciente dificilmente chega. Dezoito anos atrás, quando eu comecei a minha carreira, eu peguei pacientes que se sentiam ofendidos de serem examinados, mesmo você tendo explicado para eles que teriam que fazer exame. Não sei se é por nervosismo, por falta de compreensão do paciente, se ele se sentiu ofendido. Mas hoje isso é muito difícil de acontecer.

 

MidiaNews - As piadas que existem em torno do exame do toque atrapalham?

 

Walid Khalil - Não atrapalham. As piadas são comuns da porta para fora. Quando chegam aqui dentro, geralmente, acaba a piada. A gente tenta tranquilizar e dizer que o toque não é como eles falam lá fora. “Vai levar uma dedada do médico”. Ninguém vai levar uma “dedada”. Você vai fazer um exame de toque retal para examinar a próstata porque a próstata é um órgão que descansa sob o reto. Então, quando eu faço o toque, a intenção é de atingir a superfície da próstata que está acometida pela doença. O toque retal nada mais é do que eu tentar, através da sensibilidade do dedo, encontrar nódulos endurecidos que correspondem ao câncer de próstata.

 

MidiaNews - Por que o chamado exame PSA não é suficiente para constatar a doença?

 

Walid Khalil - Porque o PSA é um marcador. Ele aumenta a detecção da doença, mas ele não é suficiente para isso. Quando eu tenho associação do PSA com o toque, chega a mais de 80% a chance de eu diagnosticar um câncer de próstata.

 

MidiaNews - Existe alguma técnica em desenvolvimento que um dia poderá substituir o toque?

 

Walid Khalil  - Para substituir o toque, teria que ser exames de imagem muito sensíveis, que tenham uma sensibilidade muito alta, e uma especificidade muito alta para câncer de próstata para que eu possa dispensar o toque. Cada vez mais eles têm investido em exames de imagens, como ressonância, para tentar detectar áreas suspeitas de tumor. Mas ainda não se encontrou um exame que substitua o toque.

 

MidiaNews - Como está a prevalência da doença?

 

Walid Khalil - A prevalência do câncer de próstata no Brasil é bastante alta. Existem dados do Inca, que é o Instituto Nacional do Câncer, mostrando que o câncer de próstata é o segundo tipo que mais acomete a população masculina, só perde para os canceres de pele não-melanomatosos, e é o câncer que mais mata no Brasil. No mundo, é o quarto tipo de câncer que mais mata tanto homem quanto mulher. E também é o segundo que mais mata os homens.

Alair Ribeiro/MidiaNews

Walid Khalil 31-10-2017

O médico explica como é feito o exame do toque retal

MidiaNews - E em Mato Grosso?

 

Walid Khalil - Mato Grosso é um dos Estados onde a incidência é maior. Apesar de ser um tumor muito prevalente em países mais desenvolvidos do que subdesenvolvidos, quando você compara Mato Grosso com Estados mais desenvolvidos, principalmente industrialmente como São Paulo e Rio Grande do Sul, a incidência do câncer de próstata em Mato Grosso é assustadora. Isso está muito associado ao estilo de vida do homem mato-grossense. Hoje a nossa população é uma das mais obesas do Brasil. A obesidade está intimamente relacionada ao câncer de próstata. Alimentação, acho que o predomínio excessivo de carne vermelha também. O mato-grossense gosta muito de churrasco. O churrasco tem substâncias cancerígenas por conta da queima da gordura e do carvão. E isso acaba, possivelmente, aumentando também o risco para o desenvolvimento de qualquer tipo de tumor. Acho que está mais relacionado à obesidade.

 

MidiaNews - Vida sedentária, estresse, fumo também são fatores que contribuem?

 

Walid Khalil - Bastante. O estilo de vida é extremamente importante como fator de causa para a maioria dos tumores e para o câncer de próstata não seria diferente. Obesidade, a ingestão de álcool, o tabagismo, o sedentarismo são fatores importantes. Quanto a fatores raciais, vale ressaltar que na população negra a incidência também é mais alta. Chega a ser 1,8 vez mais do que na população branca.

 

MidiaNews - Então existe um perfil de homens mais propensos à doença?

 

Walid Khalil - Sim. Homens negros, obesos, sedentários, com hábitos de ingesta de álcool e de tabagismo. Nestas pessoas o risco é aumentado. Mas eu diria maior em negros e obesos.

 

MidiaNews - Muitos médicos dizem que, em estágio avançado, a doença é devastadora. Quais as consequências para o paciente que não tratar a tempo?

 

Walid Khalil - O câncer de próstata é um câncer que, geralmente, acomete a população da terceira idade a partir dos 65 anos, principalmente. É um câncer que tem algumas características. Ou ele vai ser um câncer mais lento, mais arrastado. No entanto existem formas mais agressivas onde, principalmente em homens mais novos, esses homens dificilmente conseguem viver mais de 5 anos. Esse câncer costuma se “metastizar”, ou seja, lançar células metastáticas para outros órgãos. Primeiro nos órgãos vizinhos, como linfonodos, os gânglios, a vesícula seminal, depois para os ossos, chegando acometer até o pulmão e o cérebro. Isso é devastador. É um tumor que acaba causando muita dor. Os pacientes acabam sofrendo com muita dor porque começa a fragilizar demais os ossos.

 

MidiaNews - A partir de que ponto, o câncer de próstata não tem mais cura?

 

Walid Khalil - A partir do momento em que ele emitir várias metástases, a partir do momento que ele saiu da próstata e foi para outros órgãos. Dificilmente será um câncer que terá cura.

 

MidiaNews - Nos últimos anos, a reposição hormonal com testosterona tem sido muito difundida. Há quem a relacione com o aumento nos casos de câncer de próstata. O que há de verdade na relação entre uso indiscriminado de testosterona e o câncer de próstata ou outros cânceres?

 

Walid Khalil - A testosterona é um hormônio masculino importantíssimo. Ele não é o hormônio responsável só para melhorar a nossa libido, a função sexual, o ânimo. É um hormônio que é requisitado pela maioria das células musculares. Trabalhos recentes têm mostrado cada vez mais que a testosterona não tem relação nenhuma com o câncer de próstata.

Não há risco de se fazer uso da reposição hormonal com a testosterona e desenvolver câncer de próstata

 

Então não há risco de se fazer uso da reposição hormonal com a testosterona e desenvolver câncer de próstata por causa dela. A testosterona não é recomendada para pacientes que já tenham câncer. Mas aqueles que já foram tratados podem repor a testosterona.

 

MidiaNews - Com qual idade o senhor recomenda o PSA?  E com qual idade, o senhor recomenda o toque?

 

Walid Khalil - Tanto o PSA quanto o toque, eu recomendo que todos os homens a partir dos 45 anos comecem a fazer. Existe uma recomendação da sociedade brasileira de urologia de ser a partir dos 50 anos.

 

MidiaNews - Pessoas com casos na família devem fazer estes procedimentos com antecedência?

 

Walid Khalil - Devem começar o rastreamento antes, quanto mais cedo. A partir dos 40 anos, antes não. É importante que esses pacientes façam sempre o PSA, o toque, e quando há algum fator de risco a gente inclui também o ultrassom da próstata pela via abdominal. 

 

Fonte: Midia News

FACEBOOK