Paranatinga, 26 de Maio de 2020

Cidades

TRAGÉDIA

Filha de professores quer recomeço após perder pais e marido

Publicado 29/05/2016 23:05:04


Tatiane conta que a filha foi a força que a manteve viva depois do acidente com a família

Todas as vezes em que fica triste e se lembra dos últimos acontecimentos de sua vida, a bancária Tatiane Romagnolli Dias, de 30 anos, busca forças no sorriso de sua filha, a pequena Antonella, de um ano.

 

Elas são as únicas sobreviventes de uma colisão entre carros e um caminhão, na BR-364, em fevereiro deste ano. No acidente, a bancária perdeu os pais e o marido.

 

Tatiane e a família haviam ido para o município de Dracena, em São Paulo, para participar da formatura de um parente e também para descansar.

 

Era carnaval e a família ficou cinco dias no interior paulista, período no qual aproveitou para reencontrar parentes distantes, pois os pais da bancária nasceram na região.

 

Na tarde de 9 de fevereiro, a família retornava para Cuiabá em um automóvel Ecosport. Enquanto trafegava pela BR-364, nas proximidades de Jaciara (148 km ao Sul de Cuiabá), o carro foi atingido por um caminhão e por um SUV Hyundai ix35, que vinha na contramão e não teria conseguido realizar uma ultrapassagem.

 

O Ecosport era conduzido pelo marido da bancária, o representante comercial Thiago Olimpio Borges, de 30 anos. Ao lado do motorista, estava o pai de Tatiane, o professor João Batista Dias, de 57 anos. No banco traseiro do veículo, estavam a pequena Antonella, em uma cadeirinha para bebê, a bancária e sua mãe, a professora Iraci Romagnolli, de 53 anos.

 

Arquivo Pessoal

Tatiane Dias

João Dias (à direita), Tatiane, Thiago, Iraci e Rhauan: família reunida no dia do casamento da bancária

Depois de ser atingido pelos dois veículos, o Ecosport ficou completamente destruído. Os pais de Tatiane e o marido morreram no local do acidente.

 

A bancária sofreu graves lesões e, desacordada, foi encaminhada ao Hospital Regional de Rondonópolis. A filha dela fraturou três costelas e também foi encaminhada à unidade de saúde.

 

“O carro pegou o nosso automóvel de lado e o caminhão o pegou de frente. O lugar onde eu e a minha filha estávamos não foi muito atingido pela colisão. O impacto acabou sendo mais forte nos outros. Eu não duvido que tenha sido um milagre, pois minha filha saiu sem graves lesões”, declarou.

 

Logo que chegou ao hospital, Tatiane foi avaliada pelos médicos, que constataram que seu estado de saúde era grave e a encaminharam para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

 

Durante o impacto da colisão, ela acabou desenvolvendo um coágulo no cérebro. Porém, como havia contraído zika dias antes, a bancária não pôde ser operada quando chegou à unidade de saúde, pois o sangue teria dificuldades para coagular depois de uma cirurgia.

 

“O médico me disse que, quando alguém sofre um acidente de carro, há quatro graus de avaliação do paciente e o meu era o terceiro. Depois do meu grau de gravidade, o próximo era o falecimento”, relatou.

 

A paciente ficou durante três dias imobilizada, sem poder passar por nenhum procedimento cirúrgico. Os exames realizados na unidade médica constataram que ela teve diversas lesões ocasionadas pelo acidente. Ela perfurou o pulmão, teve coágulos no rim e no fígado e também quebrou diversas partes do corpo, entre elas o pé direito, três costelas, a coluna e o cóccix.

 

Apesar de todo o auxílio médico que estava recebendo para se recuperar, Tatiane conta que foi graças à filha que encontrou forças para lutar pela vida. A pequena Antonella havia se recuperado rapidamente das fraturas nas costelas e recebeu alta médica no dia seguinte ao acidente.

 

“Quando eu estava internada, dizia ao médico, todos os dias, que não poderia morrer, pois eu tinha a minha filha. Só estou viva hoje por causa dela. Se não fosse pela minha filha, não estaria aqui”, disse.

 

Quando eu estava internada, dizia ao médico todos os dias que não poderia morrer, pois eu tinha a minha filha. Só estou viva hoje por causa dela

Além do apoio que buscava na filha, a bancária acredita que também recebeu forças dos familiares que havia perdido no acidente.

 

“O meu pai, a minha mãe e o meu esposo estavam lá comigo, o tempo todo. Só o fato de a minha filha não ter tido lesões graves, pra mim, é uma vitória”, afirmou.

 

Uma semana depois de ser internada na UTI do Hospital Regional de Rondonópolis, Tatiane foi encaminhada para um hospital de Cuiabá.

 

Na unidade de saúde da Capital, ela passou por procedimentos cirúrgicos. Em 26 de fevereiro, depois de avaliações médicas, recebeu alta, após concluir a primeira parte do tratamento pós-acidente.

 

“Não sei explicar por que eu e a minha filha ficamos vivas. Se o meu marido teve algum lapso, um tempo para pensar, algum cálculo que ele tenha feito na cabeça dele para deixar a gente viva, ele fez”.

 

A recuperação

 

Apesar de ter recebido alta hospitalar, a bancária ainda continua passando por tratamentos para se recuperar. Logo que saiu da unidade médica, ela foi para a casa dos tios, junto com a filha, que estava sob os cuidados da avó paterna.

 

Para auxiliá-la na recuperação, o irmão dela, o engenheiro eletricista Rhauan Romagnolli Dias, abandonou um mestrado na Universidade de São Paulo (USP) e voltou para Cuiabá.

 

“Ele parou a vida inteira dele no dia do acidente e veio para Cuiabá para cuidar de mim. Ele foi fundamental para o meu tratamento. Quando eu saí do hospital, fiquei de cadeira de rodas durante 60 dias e ele me ajudava o tempo todo”, comentou.

 

Mais de três meses depois do acidente, Tatiane ainda tem sequelas da colisão e realiza tratamentos médicos para contornar as lesões.

 

“Ainda estou limitada a fazer muitas coisas. Não posso limpar a casa nem posso abaixar, porque minha coluna e meu cóccix ainda estão cicatrizando. Continuo o meu tratamento e, por enquanto, estou fazendo somente fisioterapia no braço direito, para ter meus movimentos de volta”, relatou.

 

Arquivo Pessoal

Tatiane Romagnolli Dias_Casal Professores

Tatiane e Thiago estavam juntos há 13 anos e comemoraram muito a gravidez

Afastada do serviço pelo INSS, pois conseguiu auxílio-doença, ela deve retornar ao trabalho daqui a três meses.

 

“Estou afastada com o apoio total da minha empresa. Pretendo voltar em agosto, pois o INSS me liberou”.

 

Entre as mudanças que fez em sua vida desde o acidente, uma delas é a casa onde mora. A bancária mudou-se com a filha e com o irmão para a casa onde viviam seus pais. Ela não quis voltar para a residência onde morava.

 

“Na minha casa não consigo ficar, porque a lembrança do meu marido é muito forte. Ficar na casa dos meus pais é mais fácil, porque não estava lá o tempo todo e as lembranças são menores”, declarou.

 

Mortes geraram comoção

 

Os pais de Tatiane eram professores e lecionavam há décadas em escolas da Capital.

 

Iraci Romagnolli lecionou durante 28 anos no colégio Patronato Santo Antônio. Ela dava aula para o primeiro ano do ensino fundamental e também era autora de diversos livros sobre a região do Pantanal.

 

João Batista Dias fazia parte do quadro permanente de professores do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), e também deu aula durante décadas no Colégio Salesiano São Gonçalo. Ele era professor de matemática.

 

A morte do casal gerou comoção em alunos, ex-alunos, colegas de profissão e admiradores do casal. Em suas redes sociais, os dois receberam inúmeras homenagens.

 

O enterro e o velório deles reuniu diversas pessoas que, emocionadas, deram o último adeus aos docentes.

 

A comoção gerada pela morte dos pais surpreendeu Tatiane, que ficou sabendo da repercussão do falecimento deles enquanto se recuperava do acidente.

 

Eu fiquei feliz em saber que meus pais eram tão queridos. Eles nunca fizeram mal a ninguém, muito pelo contrário

“Eu fiquei feliz em saber que meus pais eram tão queridos. Eles nunca fizeram mal a ninguém, muito pelo contrário. Eles sempre gostaram da vida e só levaram amor e felicidade para as pessoas”, disse.

 

Em meio às lembranças que guarda do pai, uma frase dita por ele, depois do nascimento da neta, entristece a bancária.

 

“Ele disse para a minha mãe que agora poderia curtir a neta, pois não teve a oportunidade de curtir os filhos. Ele teria tempo pra aproveitar a minha filha, pois estava aposentado da escola particular e dava algumas aulas no IFMT. Lembrar disso me dói muito”, emocionou-se.

 

Segundo a bancária, a professora Iraci era ligada aos filhos e também à neta. A docente não costumava demonstrar quando não estava bem.

 

“Mesmo que ela estivesse triste, continuava rindo. Se estava com alguma dor, não deixava transparecer. Tudo isso aconteceu e eu não sei qual a explicação. Mas um dia a gente vai descobrir”.

 

Diante de todas as lembranças que carrega dos pais, Tatiane busca conforto nas recordações dos últimos dias que passou ao lado deles.

 

“Meus pais estavam muito felizes na viagem. Nós brincamos muito o fim de semana inteiro. Estávamos todos grudados. Meu pai estava contente por ter reunido grande parte da família. Minha mãe estava feliz por ter visto o pai dela. Aquele final de semana foi muito feliz para eles, pois eles estavam muito bem. Isso me tranquiliza”, relatou.

 

A morte de Thiago Olimpio Borges também gerou comoção nas redes sociais e diversos amigos dele prestaram homenagens e compareceram ao seu velório e ao seu enterro. Ele e Tatiane haviam se casado há três anos e, ao todo, estavam juntos há 13 anos.

 

Ao falar sobre o marido, a bancária chora e se lembra da filha a todo o momento.

 

Marcus Mesquita/MidiaNews

Tatiane Romagnolli Dias_Casal Professores

Tatiane espera que investigações da Polícia Civil sobre o acidente sejam concluídas o quanto antes

“Eu e o meu marido estávamos juntos o tempo todo. A gente acordava e dormia junto. A minha filha estava muito feliz. O que mais me dói é que o Thiago não vai poder ver a Antonella andar, não vai ver o primeiro dia de aula e não pôde estar junto no primeiro aniversário dela”, lamentou.

 

Investigações sobre o acidente

 

Desde que recebeu alta hospitalar, um dos objetivos de Tatiane é conseguir que a causas do acidente sejam apuradas. A Polícia Civil de Jaciara instaurou um inquérito policial para investigar a colisão entre os três veículos.

 

Segundo depoimento colhido durante as investigações, o motorista da Hyundai ix35 estaria atrás de uma fileira de caminhões, quando decidiu fazer uma ultrapassagem.

 

Tatiane afirma que se lembra de pouca coisa em relação ao acidente, mas se recorda do momento em que o outro carro se aproximou do Ecosport da família.

 

“Acho que ele se desesperou quando fez a ultrapassagem e viu o nosso carro. Ele deveria ter tentado voltar para a pista dele, mas o que ele fez foi ir para o nosso acostamento. Ele estava na contramão. Quando foi para o nosso acostamento, tirou a única chance que havia para sairmos todos vivos do acidente”.

 

“A gente ficou entre o caminhão e o Hyundai ix35, não tinha como frear nem ir para a frente, tivemos que continuar na pista e esperar que o pior acontecesse”, relatou.

 

Na data do acidente, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) havia informado que o veículo era conduzido por João Batista Dias.

 

No entanto, a bancária conta que a informação equivocada aconteceu pois o impacto entre os veículos foi muito forte e, após o acidente, não era possível identificar as posições dos ocupantes.

 

“Era o meu marido quem estava dirigindo o carro. Ele era experiente em estradas, pois trabalhava há oito anos como representante comercial e nunca tinha sofrido nenhum acidente. Se o motorista do outro carro não tivesse vindo para o nosso lado, nada disso teria acontecido”, afirmou.

 

A gente ficou entre o caminhão e o Hyundai ix35, não tinha como frear nem ir para a frente, tivemos que continuar na pista

Os motoristas do caminhão e do Hyundai ix35 não tiveram ferimentos durante a colisão. Segundo a Polícia Civil, eles ainda não prestaram depoimentos sobre o caso, mas serão ouvidos para esclarecer o acidente.

 

A vida depois do acidente

 

Os dias de Tatiane nunca mais foram o mesmo desde aquela tarde de 9 de fevereiro de 2016. Ela lamentou os rumos que sua vida tomou e se entristeceu ao fazer uma análise sobre a sua atual rotina.

 

“A minha vida virou de cabeça para baixo, assim como a da minha filha e a do meu irmão. A gente tinha planos e agora eles não existem mais. A minha vida não está a mesma coisa e não vai voltar a ser como antes nunca mais”, emocionou-se.

 

Para a bancária, desde o acidente, o futuro tornou-se algo distante. Ela costuma pensar somente no hoje e buscar forças para o amanhã.

 

“Ainda não sei qual é o meu objetivo de vida agora. A única coisa que quero é dar um futuro digno para a minha filha. Sempre irei falar para ela sobre o pai e sobre os avós. Também quero tentar lembrar para o meu irmão um pouco do amor que meus pais tinham por ele”, pontuou.

 

A filha dos professores declarou que nunca esquecerá os pais nem o marido. Ao destacar a importância deles, ela comparou como era sua vida antes do acidente e como são os seus dias atualmente.

 

“Eu era uma pessoa que tinha uma família e era muito feliz. Eu tinha um futuro e com quem falar todos os dias. Agora eu não tenho. Depois do acidente, estou tentando viver um dia após outro e vendo o que a vida vai me trazer de volta”, refletiu.

 

Apesar de não ter conseguido refazer a vida, Tatiane acredita que, na medida do possível, ela, a filha e o irmão estão aprendendo a conviver com as perdas.

 

“A gente está bem, estamos tentando viver um dia depois do outro. Eu tenho tentado ficar bem todos os dias, pela minha filha. É ela quem me dá forças para continuar”, declarou, enquanto esboçava um sorriso tímido ao lembrar-se da pequena Antonella.

 

 

Fonte: Mídia News

Publicidade Áudio

Enquete

Na sua opinião qual investimento é mais urgente para Paranatinga

CONCLUIR HOSPITAL MUNICIPAL

ASFALTAR BAIRROS

MELHORAR ILUMINAÇÃO

SINALIZAÇÃO DE TRANSITO E RUAS

Anuncios

CURTA NOSSA FAN PAGE